A composição dos cem anos

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André Filipe Sousa Araújo

Escrevi e deixei de escrever. Perdi e fui-me perdendo e nada encontrou. Toquei mas ninguém ouviu e discretamente perdi-me nas notas. Ao piano era eu e mais ninguém e lá vivia como um verdadeiro pianista. Foram assim cem anos que, alguém com a sua mente clara descreve e, então entendo que perdi aquele ilhéu da minha vida, agora cai-me ma angustia quando entendi hoje que afinal não tinha esquecido aquele ilhéu, que na sua imensa beleza caiu nas minhas mãos, mas de nada adiantou.
O meu coração estourou com tanto desgosto de nada puder dizer e, muito menos fazer! Cada vez me aproximo mais de um adeus para alguns e com medo de dizer um olá para outros!
Numa tentativa de afastamento, disse aquele mar, que com as suas mãos escrevia naquele objecto de teclas, naquela imensa praia, onde o ilhéu ficava ao longe, que eu não podia dizer nem podia falar, mas numa imensa tristeza, fiquei-me nas mágoas de um adeus, que mais cedo, ou então daqui a pouco mais tarde, nada me dirá. Porque as mágoas doem tanto? Pudera ser que nada do que eu digo ou escrevo seja sentido pelas mágoas? Não há nada naquele ilhéu que me prenda, simplesmente, ele me tocou, como quem toca a verdade de um adeus, sim como quem toca a verdade de um adeus, aquele que numa noite de inverno, onde a tarde caía e onde a saudade de sentir, entrou e acabou por me deixar sentir seduzido! Porque isso aconteceu? Porque me deixei seduzir? Se o que eu queria era a sua pequena ventania que saída dele para fora? Choro fortemente, mas choro, porque simplesmente chora! Podia dizer que já nada vale a pena, mas num mundo cruel e danado de dor, o nada, já é nada e eu por vezes sinto-me o nada! Quero realizar sonhos e viver aventuras, descobrir espaços e navegar em mares que antes de mim, só foram navegados por meros navegante da conquista e que naquele luar de inverno, nunca mais navegaram em mim! Quero abrir horizontes e descobrir, mas algo me perturba. Sinto-me só, simplesmente só!
Aquele que compartilhava comigo música, uma ilhéu, deixou-me, nem as notas tocam nem o piano, que ele docilmente tocava toca. Podem surgir ondas, pequenas espumas e fortes rajadas de vento, mas o meu vento numa mais lhe tocará.
Cada dia que passa me sinto, mais abastado daquele que era o meu maior compositor e que, agora, no término de um “olá”, continua a ser um grande e maior compositor, mas não nas minhas músicas, as minh

as passaram a estória, sim a estória, essa que eu inventei, em escritos nunca antes revelados, essa que eu revivo cada madrugada, em cada raiar de sol, mas que dolorosamente cai sobre o meu espanto e pequeno olhar! Pudera existir tal dor dentro de mim? Poderei apenas não sentir nada do que sinto ou simplesmente fingir que sinto? Nada! É só isso que digo, é isso que vivi e é isso que farei viver.
Surge um dia, na nossa vida, em que escolhemos o ilhéu, ou o mar, mas acreditamos que o ilhéu é o melhor, mas apenas te completa! Foram repetidas as vezes que eu disse, não sopres de mais porque senão irás no sabor da maré e, eu ficarei sem nada, mas tantas foram as vezes como tantas as dores mal sentidas, que a maré acabou por levar aquele ilhéu, que suavemente caminha em direcção ao lugar onde estou, mas escapa-se sempre para um poço sem fundo, rodeado de pequenas chamas que em luzes de ferro, saem daquele robusto lugar.
Ser pianista sempre foi o meu sonho, aquele ilhéu que a alma me concedeu foi a força na minha vida e, portanto eu sou mais que um som sou a tecla que é tua, a mágoa que é descrita naquelas teclas, perdi, perco, mas depressa encontro. Nada nem ninguém compõe como eu e, nada nem ninguém sabe quem eu sou. Sou cem anos. Sou piano. No fundo dou tudo que a alma toca que a verdade escuta, mas acima de tudo sou uma melodia. Sou o som dos cem anos que, aquele velho piano tocou. Choro, sim as músicas também choram. E agora viverei eternamente na minha mágoa. O pianista tem medo de me tocar dizendo que sou velho, mas o meu som é forte a minha composição é dura. Nada daqui é falso, todo o pianista é um bom pianista quando sabe mentir o que nunca sentiu e descreve-o numa pauta assim aconteceu comigo, sou a mentira de um compositor fraco e desfalecido, perdido e amargurado que naquela noite luar ergueu a sua força e compôs-me de uma forma digna que acabei por ficar conhecido como a composição dos cem anos.
Sem demoras termino o que nunca comecei e que na vida nada aqui se torna verdade, amei e fui amado e perdi e fui perdido apenas encontrei em ti a forma ideal de ser a composição dos cem anos que, apesar de ser um papel gasto sei que de mim vem um som que perdura à mais de cem anos, por isso é que sou a composição dos cem anos, todos me tocaram e todos se lembram deste que foi amado durante cem anos e, que agora acaba de partir para nunca mais encontrar a alegria de ser tocado mais uma vez…

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