“Contas à vida...”

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Carlos Ribeiro

Desde muito cedo, a Península Ibérica foi evangelizada. Ainda sob ocupação dos Romanos, construíram-se os primeiros lugares de Culto. Com a independência de Portugal, a região norte foi pioneira na implantação do Cristianismo e sua propagação.

Um dia destes, dei por mim a olhar para trás. A tentar perceber o que tinha feito ao longo da vida de certo e de errado. Quantos momentos de reflexão temos realmente oportunidade de ter?
Enquanto crianças felizes e adolescestes inquietos, as esperanças, sonhos e projetos multiplicam-se, criando a expectativa de uma vida plena de sucessos pessoais e profissionais. Raramente temos tempo ou vontade de olhar à nossa volta e perceber que ao nosso lado vivem milhões de crianças e adolescentes, como nós, mas que o único objetivo de vida que têm é sobreviver. Enquanto nós, os afortunados, nos debatemos sobre a marca dos ténis a comprar ou sobre as capacidades dos telemóveis topo de gama, e fazemos birras infantis quando não nos dão a escolher o que queremos comer entre robalo ou pescada, ou nos recusamos a comer frango porque queríamos peru, esquecendo que estão, ao dobrar da esquina, milhões de crianças a esgravatar a terra seca à procura de uma migalha perdida.

Depois crescemos... Envolvidos na nossa gaiola de protecionismo e egocentrismo, tentando a cada dia ser melhores que o colega de trabalho, ter mais bens que o vizinho do lado, ser culturalmente mais evoluído que os intelectuais. Enfim, dando razão à insistência na competitividade que nos incutiram desde que nascemos. Do outro lado, alguns dos outros também crescem... com a mesma competitividade, embora direcionada para outros fins. A luta diária pela vida, a guerra por um pedaço de terra, o inconformismo da miséria, a revolta pela falta de oportunidades.

E depois casámos e temos filhos! E desde logo, sentimos que somos os seus donos, que temos obrigação de lhes ensinar os mesmos valores e princípios que tantas vezes contestamos quando éramos nós os filhos. Caímos nos mesmos erros de criar, educar e fazer crescer crianças fortes, capazes, inteligentes e egoístas. Ensinamos-lhes os valores da competição, de ser os melhores a qualquer preço. A vida vai ensinando-nos, a nós, que não é bem assim! Ao mesmo tempo que insistimos em transmitir todo o nosso egocentrismo para os nossos filhos, esquecemos-nos tantas vezes que nós próprios nunca atingimos os projetos, sonhos e objetivos a que nos propusemos. Com facilidade culpamos tudo e todos dos nossos fracassos, raramente aceitando que são as nossas escolhas que definem a nossa vida. Ou talvez não... talvez, independentemente do caminho que escolhamos, o resultado seja o mesmo. A verdade é que somos parametrizados à nascença, sendo absorvidos pelo nosso meio ambiente que, com antecipação, já se consiga adivinhar o futuro quase certo. Nós, os da sociedade de consumo, e os outros, da sociedade da miséria...

E chega a meia idade sem que tivéssemos percebido. Num ápice, passamos de crianças a embirrar pelo mesmo brinquedo, ou a esfaquear o melhor amigo por um pedaço de carne podre, para adultos desnorteados pela velocidade com que a vida se está a passar. E lentamente, muito lentamente, vamos tomando consciência de que, afinal, temos tudo e não temos nada. Os filhos vão seguindo o seu caminho, a tal casa de sonho à beira mar vai desaparecendo na memória, o tal carro de luxo não era assim tão importante, a tal viagem à volta do mundo era ficção das agências de viagens. E chegam as frustrações, a infelicidade de uma doença grave, as depressões. As depressões e os vícios como único meio de escape, como uma fuga à realidade da vida, como uma punição por não termos conseguido vencer as nossas próprias frustrações! Afundámos-nos num mundo só nosso, isolado, com pena de nós próprios e culpando, invariavelmente, quem nos “vendeu” uma imagem de perfeição e invencibilidade inatacável. Tornámos-nos nos homens-bomba... onde nos destruímos a nós próprios ou destruímos os outros, literalmente.

Até que um dia chegámos à idade onde percebemos algumas coisas mais claramente. O que acontece hoje, foi o mesmo que aconteceu ontem e o mesmo que acontecerá amanhã. A vida é um ciclo, dando voltas sobre si própria e nós vamos rodopiando ao ritmo que ela acontece. E normalmente esta viagem é agradável, ultrapassando inúmeros obstáculos que vão surgindo dia a dia, às vezes superando os nossos limites e, noutras vezes, aceitando com paciência o que não conseguimos mudar. É um processo longo, muitas vezes difícil, mas que inevitavelmente acabamos por ter. Recordar o sorriso feliz na cara dos filhos ao chegar a casa após um dia exaustivo no trabalho, fazendo-nos sentir o melhor pai do mundo, relembrar momentos de dor partilhada pelas pessoas que um dia amamos e desapareceram, sorrir por momentos efémeros de prazer carnal que achamos únicos, conversas eruditas ou brejeiras sobre qualquer coisa ou, simplesmente, os risos.

Hoje, sento-me aqui sozinho a pensar na minha vida. Observo as pessoas a passar, algumas que conheço desde sempre e outras que nunca as tinha visto. Todas têm a sua história, semelhante em tudo à minha. A grande questão que coloco a mim próprio é que, se pudesse voltar atrás no tempo, voltar a ser um menino, um adolescente, um homem, teria feito algo diferente? Nunca acreditei no destino, no entanto também nunca acreditei na inevitabilidade das coisas... pequenos nadas, pequenos gestos de amor, boa vontade, de compreensão fazem a diferença sim! Mais cedo ou mais tarde, as mentes vão consciencializar-se de que todos somos uma família, nós e os outros da sociedade da miséria.
Valeu a pena fazer contas à vida?
Claro que sim!!

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