África

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Carlos Ribeiro

Aquela goiabeira sempre esteve ali. Plantada no fundo do quintal, já para lá do muro, tinha a particularidade de se dividir a meio num “v” perfeito, onde de um lado cresciam goiabas brancas e do outro vermelhas. Uma árvore única e grandiosa, alvo de momentos de divertimento e prazer, meus, dos meus irmãos e dos nossos amigos. Como canta a música: éramos um bando de pardais à solta... livres e despreocupados.

A época das monções, onde as chuvas torrenciais caíam durante dias sem cessar, eram aguardadas com ansiedade e expectativa. Andávamos dias e dias à volta do nosso pai, pedindo e implorando para que construísse uma canoa feita com um tambor de óleo de 500 litros cortado a meio, com rebordo, a toda a volta, em borracha de pneus velhos e dois remos, antes de começarem as chuvas. O nosso quintal ficava inundado, bem como todos os terrenos à volta, às vezes com um metro de altura de água. Uma beleza natural, que se mantinha durante alguns dias, encerrando a escola e obrigando-nos a ficar em casa. Um percalço que nós agradecíamos, quando à noite nos ajoelhávamos junto à cama e repetíamos o Pai Nosso que a nossa mãe ia rezando, sem ela saber, claro!

África... Terra quente e húmida, vermelha e magnífica. Terra de contrastes entre uma natureza de uma beleza de cortar a respiração e cidades grandiosas ao estilo europeu. Terra que me viu nascer, a mim e aos meus dois irmãos. Entre gente simples e boa e um milhão de amigos de todas as raças, cores e credos, crescemos sem complexos ou diferenças, num bairro modesto a alguns quilómetros da cidade, onde toda a gente se conhecia e respeitava. Os meus pais tinham-se conhecido e casado lá depois de, um dia, os meus avós terem decidido procurar uma nova vida do outro lado do mundo. Sem formação académica e ainda sem saberem a existência um do outro, dedicaram-se ao trabalho afincadamente, tentando conquistar um lugar num sítio inóspito e cheio de promessas. Jovens e capazes, acabaram por se conhecer e enamorar, casando pouco tempo depois. Demoraram anos a construir a nossa casa, dia a dia, tijolo a tijolo, com a ajuda de familiares e amigos que, aos fins de semana, se disponibilizavam para o fazer. E assim nasceu o nosso lar, já com a goiabeira ao fundo... e nascemos nós os três. Todos rapazes, saudáveis e com uma diferença de idades de cerca de dois anos entre cada um. Aos vinte e três anos, a minha mãe era mãe de três filhos!
Um tempo onde os aparelhos de televisão eram raros, o raiar do dia era às 5h30 e a escola começava às 7h00 da manhã. A verdade é que não nos custava muito, pois íamos para a cama muito cedo, mesmo nas noites em que fingíamos estar a dormir e líamos histórias aos quadradinhos de cowboys e afins, com uma pequena lanterna escondida debaixo da almofada. Tudo isto no maior silêncio, já que o meu pai trabalhava por turnos, entrando inúmeras vezes ao trabalho à meia-noite , o que nos obrigava a deixar para o dia seguinte a resolução das quezílias entre nós. Dormíamos os três no mesmo quarto e, como é óbvio, nem sempre as coisas corriam bem na sapiência dos nossos cinco, sete ou nove anos... em que nos travávamos de razões, acabando, invariavelmente, por terminar quando o nosso pai entrava no quarto de cinto na mão e enfiávamos-nos debaixo dos cobertores muito depressa! Normalmente ele desistia sem levantar a mão, mas para nós a ameaça era o suficiente!
Nos dias em que o calor apertava e as brincadeiras de todo o género aconteciam, incluindo lutas de espadas de pau, subida às árvores para apanhar mangas, papaias ou tangerinas, a perseguição a pequenas cobras ou camaleões, a caça aos passarinhos com fisgas manuais entre muitas outras coisas, chegávamos ao fim do dia de tal forma sujos que só se viam os dentes. Debaixo de um telheiro na parte de trás da casa, perto da goiabeira, existia um chuveiro de água fria onde a minha mãe nos obrigava a despir e a tomar banho. Era um momento bom, do qual nós gostávamos. O que nos chateava e provocava grandes discussões, era saber de quem era a vez de ir ao mato cortar capim para os coelhos! Uma tarefa chata, chata e chata... mas enfim, fazia parte da nossa vida. Ainda pior que dar de comer às galinhas ou aos patos! Ou ao cão! Ao cão era fácil dar de comer, pois nós tínhamo-lo treinado para comer de tudo... incluindo a sopa de couves ou o peixe cozido que a minha mãe nos punha na mesa para comermos e que nós detestávamos. Mal ela virava as costas por qualquer motivo, nós corríamos lá fora e “obrigávamos” o animal a comer tudo e depressa antes que ela nos apanhasse em flagrante.
Na verdade, bons e velhos tempos, onde a vida corria devagar. Onde bebíamos água de coco diretamente do fruto, onde corríamos felizes debaixo da chuva quente e onde cimentamos amizades para o resto da vida.
Cinquenta anos mais tarde, voltei lá. Aliás, voltámos os três, juntos como sempre estivemos! A ansiedade e alguma apreensão eram visíveis nos nossos rostos, à medida que nos íamos aproximando do nosso sítio, da nossa cidade, do nosso bairro, da nossa casa. As memórias chegavam às catadupas, sem aviso, de cada vez que o táxi passava por um lugar que reconhecíamos. Ou julgávamos que assim era, pois tinha sido há tantos anos e estava tudo muito diferente. As cores, os cheiros, as pessoas, tudo era diferente... já não vimos crianças a correr à chuva, descalças e só de calções, já não vimos papagaios de papel colorido a encher o céu azul, já não vimos os vendedores de amendoim torrado à beira da estrada nem ouvimos a sineta da bicicleta do homem dos gelados.

Chegamos à nossa casa!
Devagar, descemos do táxi e percorremos meia dúzia de metros pelo quintal. Ficámos ali, parados, a contemplar o que víamos e a recordar o que tínhamos visto, um dia...
Só restava a goiabeira...

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