O teu lugar...

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Susana Miranda

A cada despertar, sempre que te vejo, encho-me de força interior para enfrentar um novo dia, já que a força física vai sendo cada vez menor. Há medida que os anos passam, vou sentindo mais o peso da idade, mesmo frequentando assiduamente as aulas de hidroginástica. Lembro-me perfeitamente dos tempos em que éramos jovens e aos domingos de manhã corríamos uma hora pelo centro da cidade e nada nos dava mais prazer do que chegar a casa encharcados de suor e enfiarmos-nos na banheira, num banho demorado, relaxado, num momento a dois... Momentos como este e outros, são o segredo do nosso casamento feliz e duradouro. Obviamente que nem sempre foi um “mar de rosas”, tivemos os nossos “espinhos” pelo caminho, mas só assim conseguimos dar valor àquilo que temos hoje e conquistámos... o nosso lar, a nossa filha e netos... as nossas memórias!

Abro a persiana do nosso quarto e deixo o sol desta primavera amena entrar, decidindo ir tomar um duche rápido, vestir um vestido azul, tal como a cor do céu de hoje, e preparar o nosso pequeno almoço. Desço a rua em direção à padaria para te comprar o pão fresco de sementes que tanto gostas, porque nunca conseguiste comer pão do dia anterior, dizes sempre que cada dia merece ter coisas frescas e novas na mesa. Preparo uma laranja, uma chávena de café com leite e o teu pão com geleia e sento-me aqui, ao teu lado, para degustar mais um pequeno almoço, ouvindo os pássaros lá fora e o frenesim dos carros, sempre apressados, tal como nós outrora.

Não sei se já te disse, mas hoje a nossa filha vem cá almoçar. Anda preocupada comigo, sempre com telefonemas e perguntas constantes e eu vou-lhe dizendo que estou bem. No entanto parece-me que ela não acredita em mim, já que tem vindo cá regularmente quase que a vigiar-me. Quem se preocupa com ela sou eu! Trabalha demasiadas horas na redação do jornal, pois é uma jornalista responsável, o que nos enche de orgulho. Fizemos um ótimo trabalho na educação dela, não achas? É uma excelente mulher, mãe, esposa e filha.

Arrumo a louça do pequeno almoço, pego no lápis e no papel e começo a tomar notas sobre as compras que necessito fazer no supermercado. Acho que vou preparar um bacalhau assado no forno com puré, para o almoço, como vocês tanto gostam. Não me posso esquecer de comprar o teu vinho preferido e um gelado para a sobremesa. Fica sempre bem a acompanhar aquela banana assada no forno, uma ementa do vosso agrado, tenho a certeza! Ai... se estes jovens casais soubessem como é preciso ter imaginação e dedicação para manter o amor aceso como uma chama... Eu adoro mimar-te! E sinto que tu sempre me “estragaste” com mimos também... Não falhas uma única semana! Trazes-me sempre um ramo de flores coloridas para a jarra da entrada da nossa casa. Tu sabes que adoro flores e, mais ainda, estes gestos românticos.

Rumo em direção ao supermercado e reparo nos olhares inquietos das vizinhas que me vão dando bom dia com um ar pouco feliz. Talvez hoje não tenham acordado com a melhor disposição... Lembrei-me agora que vou fazer também o bolo de chocolate que os nossos netos tanto gostam, assim amanhã já têm um lanche diferente para levar para a escola. Não sei porquê, mas nunca mais os foste buscar à escola no final da tarde... Teimosias da nossa filha que, eventualmente, pode achar que nos está a sobrecarregar com essa tarefa, mas não está! É um prazer para nós termos a casa cheia, mais ainda sentir a juventude e vivacidade deles.

Já com os dois sacos cheios de compras nas mãos, vou subindo a rua e perguntando-me a mim própria porque não vieste comigo, logo hoje que precisava da tua ajuda. O peso dos sacos e a inclinação da rua cansam-me bastante, já não tenho a força e energia de antigamente. Sempre gostaste de vir ao supermercado comigo, dizes que sentes prazer na minha companhia, mesmo que seja só a olhar para as prateleiras à procura das melhores promoções.

Finalmente chego a casa, calço os chinelos e vou para a cozinha para começar a preparar o almoço e o bolo para os miúdos. A nossa filha está cá por volta da uma hora e, logo de seguida, volta para o jornal, para mais uma tarde de trabalho, e não quero que se atrase por minha culpa!
Coloco a mesa na sala, já com a televisão ligada, até que ouço a campainha! É ela! Como sempre, está linda, com um vestido preto e uns sapatos cinza. Cumprimenta-me com um beijo e um abraço e, mal entra na sala, o sorriso desfaz-se... Fica a olhar para mim com um semblante pesado e lentamente retira um prato, faca, garfo e um copo da mesa. Não consigo compreender... Porque está ela a fazer aquilo? Ficam apenas dois lugares na mesa... Olho em volta... Estou eu e ela... Faltas tu, claro! Pergunto à nossa filha por ti. Os olhos dela enchem-se de lágrimas... Diz-me que nos deixaste há quatro dias... um ataque cardíaco.

Morreste? Não pode ser, eu sempre achei que tinha sido um sonho mau, não era real, claro que não podia ser! Eu contei-lhe sobre o nosso pequeno-almoço, mas depois tu não foste comigo ao supermercado... Os olhares pesarosos das vizinhas... Vou a correr ao nosso hall de entrada e as flores, as últimas que me compraste, estavam murchas... As lágrimas começam a escorrer-me pela cara como um rio.
No teu lugar ficou o vazio...

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