Boicote à verdade

Ideias Políticas

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Hugo Soares

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Quem tem medo da verdade que a CGD parece esconder? Não é seguramente o Partido Social Democrata. Já os partidos da esquerda e o Partido Socialista em particular tudo têm feito para que o apuramento dos factos relativos à gestão do banco público tropece a cada passo, nomeadamente no que concerne às matérias que a Comissão Parlamentar de Inquérito tem procurado esclarecer. A ideia imediata que fica é de que há interesse, da parte de alguns, que a verdade permaneça na sombra, ocultada por um manto de mistificações e de silêncios. Mas não podemos admitir que tal aconteça.

Em primeiro lugar, porque a CGD é do Estado. Quer isto dizer que os portugueses têm o dever e o direito de saber como é que o seu banco público é gerido, escrutinando a atuação de quem o gere e administra. Se há dúvidas quanto a atos de gestão ou administração, com prejuízo para o erário público, logo, para os contribuintes, é evidente que todos temos de saber o que aconteceu ou está a acontecer.
Em segundo lugar, porque a Caixa tem absorvido muito dinheiro dos portugueses e isso obriga a explicações. E se em 2012, o reforço de capital de 1.650 milhões de euros foi devidamente justificado, hoje os portugueses ainda não sabem porque é que o atual governo decidiu que a CGD precisa de mais 5 mil milhões de euros. As reais necessidades deste brutal aumento de capital permanecem desconhecidas dos portugueses.

E em terceiro lugar, porque a Caixa é a principal instituição financeira do País, e sendo do Estado, além de acautelar os interesses dos contribuintes, tem de concentrar-se nas suas principais missões: garantir a máxima segurança aos depositantes e ser um agente de apoio à economia nacional.

Ora, desde o início da sua constituição (e mesmo antes) que a comissão de inquérito à Caixa se confronta com o sistemático bloqueio por parte do PS, Bloco e PCP. Que o PS tem receio da comissão de inquérito já entendemos. Falta perceber porque é que o BE e o PCP assumem agora as dores dos socialistas. É um mistério esta nova atitude, o encobrimento e a indulgência destes dois partidos, que sempre foram tão rápidos a apontar o dedo à falta de transparência quando se trata dos outros. Pois bem, agora já não perseguem a verdade, mais parece que são perseguidos por ela.

Os mais recentes desenvolvimentos não deixam margem para dúvidas: a atual maioria só está interessada em encerrar (diria mesmo enterrar) esta comissão de inquérito. Usam a maioria para obstaculizar permanentemente o normal funcionamento da comissão. Juntos, chumbaram mais de 15 audições pedidas pelo PSD e CDS - inclusivamente, de alguns nomes que eles próprios inicialmente também queriam ouvir. Dá-se o caso - caricato se não fosse grave - de um desses nomes que o PSD pretende ouvir e que foi chumbado, ter ele próprio pedido para ser ouvido (o socialista Armando Vara, ex-administrador da CGD por altura do primeiro governo de José Sócrates).

Não satisfeitos com isso, querem apressar o encerramento da comissão, forçando conclusões à medida, não da verdade dos factos mas das suas conveniências políticas. A tudo isto, junta-se a decisão do Presidente da Assembleia da República de não permitir o alargamento do objeto da comissão ao atual processo de capitalização da CGD, uma posição no nosso entender injustificada porque cerceia o direito dos deputados de escrutinar os atos do governo.

Esperamos, no mínimo, que a comissão tenha acesso à correspondência trocada entre o governo e o líder da anterior administração, António Domingues, que consideramos essencial para se perceber se ninguém faltou à verdade nesse inenarrável processo de má memória.
De uma coisa tenho a certeza: a verdade não tem cor partidária e os portugueses têm todo o direito de a conhecer. A democracia não se compadece com boicotes à verdade.

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