Afetos na leitura

Voz às Bibliotecas

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Aida Alves

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Comemorou-se ontem o dia de São Valentim, a 14 de fevereiro. Este dia celebra o amor e os afetos, entre casais, entre crianças, entre alunos e professores, entre amigos e colegas, e carateriza-se pela troca mútua de mimos, uns mais singelos, outros por vezes mais ostentosos. Cabe a cada um definir as suas demonstrações de afeto, que podem acontecer num dia especial, ou, preferencialmente em todos os dias do ano.

O Dia de S. Valentim, corresponde ao dia festivo de dois mártires cristãos, mas as suas origens remontam muito provavelmente, e mais distantes no tempo, a uma festa pagã, comemorada pelos romanos. Esta festa, de nome Lupercalia, realizada sempre a 14 de fevereiro, homenageava o casal formado por Juno (deusa da mulher e do casamento) e Pan (deus da natureza). Marcava, também, o ínicio da primavera. É, de facto, na primavera que a vida ressurge com renovado esplendor e é na primavera que a natureza se reproduz com vigor e profusão.

Relacionar esta festa com bibliotecas e livros, parece ser raciocínio algo desconexo, mas não o é, de todo. Desde logo, porque há uma relação quase física e espiritual entre amor e literatura. Uma produção imensa de materiais literários, quer em prosa, quer, sobretudo, em poesia. De facto, a poesia, serviu-se sempre muito extensivamente do amor romântico, na sua forma serena e feliz, na sua forma carnal, mas também na sua antitese, o desamor, o sofrimento amoroso (Amor é um fogo que arde sem se ver, do nosso poeta Luís Vaz de Camões), o amor não correspondido, a traição, o ciúme, as zangas e reconciliações.

Nesta data, como em todos os dias do ano, oferecer um bonito poema de amor, quer de um autor preferido, quer de produção própria é sempre um gesto de elevado e apreciado valor. Mesmo quando o poema, de produção própria, tem um escasso valor literário, tal é facilmente desculpado pela boa intenção da oferta e pelos sentimentos que pretende transmitir. Nesta ordem de ideias, oferecer um poema ou um livro é, talvez, a melhor opção. E esta opção tanto é válida caso o livro se adeque a amorosas intenções, quer siga um tema diverso - um livro é sempre uma boa oferta.

Por outro lado, pode relacionar-se este dia de S. Valentim com a relação que alguns leitores, os mais fieis habitualmente, têm com os livros. Muitos destes leitores, quando questionados se preferem ler livros no formato digital ou papel, referem que não há comparação possível entre os dois, e que a leitura de um bom livro, em formato analógico, nunca será substituida pela versão digital. As razões que invocam para tal escolha são quase do foro amoroso ou mesmo sensitivo. Referem o toque, o cheiro, a sensação de plenitude que sentem quando têm, nas mãos, um livro aberto.

Poder folhear o livro, senti-lo, progredir ou recuar nas suas páginas a seu bel-prazer, são sensações únicas que a leitura da cópia digital não proporciona. Se atentarmos bem nas razões enunciadas, podemos perceber que, quer a cópia em papel, quer a cópia digital, porporcionam o mesmo tipo de informação - as páginas, linhas, palavras, letras, espaços estão lá igualmente da mesma forma.

O que difere são as sensações percebidas pelos sentidos (tato e olfacto especialmente) e isto articula diretamente com o amor sensual que vive exatamente do toque, dos cheiros, e dos olhares. Assim, ler um livro, ultrapassa a mera questão intelectual de absorção da informação, e é também uma questão sensorial que proporciona um tipo especial de prazer e que apela mesmo ao nosso lado afetivo.

Quantas vezes nos embrenhamos de forma tão completa na leitura de um livro nas duas vertentes, a intelectual e a sensorial, e nos deixamos arrebatar de tal forma pela leitura, deixando divagar a nossa imaginação, que sentimos uma perda verdadeira quando verificamos que se aproxima a última página. É como se perdêssemos uma muito boa companhia, um amigo, ou um amor recente.

E é, por vezes, pelo verdadeiro deleite sentido, que voltamos, muitas vezes, aos livros que mais prazer nos deram, percorrendo serenas planícies, ou escalando altas montanhas já anteriormente calcorreadas. E reapreciamos o caminho, não pela sua novidade, mas pela familiariedade e intimidade que nos evoca.

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