É urgente a qualificação turística das festas e das localidades

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Abílio Vilaça

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Num período em que o turismo continua a ser um importante motor do desenvolvimento económico e social do país, importa aprofundar o diagnóstico sobre o potencial turístico dos territórios, das festas, festividades, festivais, património cultural e monumental local, paisagem, exposições, ciclos de eventos, etc.
É necessário compreender a verdadeira dimensão do turismo e não querer entrar numa onda de que tudo pode ser visto como iniciativa ou evento com interesse turístico. Estamos a viver uma certa fobia turística e constata-se que a designação “turismo de e/ou turística” aparece com muita frequência e até com uma certa afronta e leviandade associada a tudo o que mexe e até a tudo o que não mexe. A feira dos enchidos, a feira dos “desenchidos”, a feira do fumeiro, as papas de sarrabulho, a festa das tasquinhas, a festa da boroa, o jogo do chocalhinho, a festa da vindima, a festividade do senhor da rua de baixo, ou até o festival do riacho da vermelha. Tudo o que junta gente, parece que tem interesse turístico e que assume relevância para ser tratado como iniciativa turística. Qualquer dia a festa de aniversário do centésimo aniversário da D. Maria passa a ser um evento turístico. Já faltou mais, ao constatarmos o que vai aparecendo como propostas de pessoas e instituições privadas e públicas muito voluntariosas.
Estamos perante um período em que se vai copiando tudo o que se julga ser iniciativa de interesse turístico. A comunicação social tem, muitas vezes, efetuado a cobertura de eventos e atribuindo-lhes erradamente a designação de festa turística. Assistimos, infelizmente, á cobertura televisiva de festas populares, ricas de musicalidade, em palcos construídos para obter boas imagens para a transmissão televisiva, num “mise-en-scène” que é montado para tal. Estas construções para televisão têm um objetivo concreto, o entretenimento e a ocupação de tempo dos telespectadores e não pode ser confundido como sendo uma iniciativa turística.
Temos de exigir um outro olhar, sério e responável sobre o turismo. Não podemos aceitar que exista uma tão grande confusão e se tente baralhar toda a gente distorcendo a realidade. Portugal, em todo o seu território, em toda a sua história, tem um capital extraordinário de tradições com potencial turístico. As tradições, o património, enfim um vasto conjunto de recursos turísticos que podem e devem ser explorados, para a verdadeira dimensão turística moderna. Não precisamos de fazer ‘embustes turísticos.
Existe uma lacuna grande em todo o país quanto ao desenvolvimento do turismo. Trata-se da inexistência ao nível concelhio da identificação do seu potencial turístico e da elaboração de planos estratégicos de desenvolvimento turístico municipais. O país compreendeu pela mão do saudoso Prof. Ernani Lopes que era necessário “reinventar o turismo em Portugal”. Esse livro referencial, patrocinado pela Confederação do Turismo de Portugal em 1995, influenciou de forma muito positiva o que veio a ser o Plano Estratégico Nacional para o Turismo, sempre referenciado com o acrónimo PENT.
Ficou claro nesse documento estratégico que apenas incluía o que foi na época considerado vital para o período em que vivíamos. Muitos segmentos do turismo ficaram de fora desse documento. Correspondia afinal, a uma opção, ainda que parcial, que vários governos, e bem, haviam adotado para o desenvolvimento do turismo português. Trabalha-se agora na Estratégia Turismo 2027, criando as bases do que será o plano estratégico para o turismo português na próxima década.
As festas populares, as festividades, entre outros eventos, possuem importância, pela capacidade de mobilização e atração de visitantes, das populações das freguesias vizinhas, pela feirinha que é montada com os feirantes e até por alguma dinâmica económica que poderão promover. Trata-se afinal de um evento popular com tradição, mas que no essencial constitui uma festa como tantas outras.
O mais importante é saber qualificar os eventos que possuem potencial turístico e estruturá-los nessa perspetiva. Qualificar um evento turístico requer que o mesmo seja pensado e externalizado para ter a capacidade de atrair turistas. Capacidade para poder ser utilizado pelos operadores turísticos. Um produto turístico requer uma abordagem técnica, profissional e que seja construído potenciando os recursos locais. Existem unidades de alojamento, de alimentação, museus, associações recreativas, filarmónicas, teatrais, etc que podem e devem ser envolvidas nessa construção. Qualificar um evento local do ponto de vista turístico requer conhecimento, requer que se estruture o produto aplicando técnicas de especificidade turística e de marketing que ultrapassa a mera organização da festa popular.
O mesmo acontece quanto ao território, pois não podemos querer receber visitantes e excursionistas, se junto ao monumento ou ao centro histórico não existem wc´s para atender ás necessidades biológicas de quem nos visita, ou mesmo espaço para a paragem do autocarro de turismo. São constantes os erros e as faltas, mesmo em monumentos nacionais muito frequentados e apresentados nas revistas e nos guias turísticos. É urgente a qualificação turística das festas e dos territórios do Minho que têm potencial turístico. Essa é uma tarefa de todos, a começar pelos municípios e pelas escolas que ensinam turismo aos diferentes níveis.

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