A era do retalho de proximidade

Escreve quem sabe

autor

Rui Marques

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Durante muitos anos o “retalho moderno” regeu-se pela premissa: quanto maior, melhor. As grandes superfícies eram consideradas melhores pelos grandes operadores do mercado, muito por causa do efeito de economia de escala na diminuição dos custos unitários e consequente aumento da rentabilidade das vendas. Eram, igualmente, consideradas pelos consumidores como a melhor opção, porque lhes permitiam aceder a um sortido muito mais alargado de produtos, a melhores preços e a um serviço muito conveniente, ao permitir concentrar as compras num só local.
Porém, nos últimos 15 anos, o modelo de loja do retalho moderno evoluiu imenso. A otimização de processos na cadeia de valor tornou possível que se atingissem níveis de rentabilidade das vendas iguais, ou até mais elevados, com lojas mais pequenas, abrindo caminho à expansão de pequenos retalhistas que têm vindo a ganhar quota de mercado aos grandes operadores, em diversos mercados.
Os compradores têm, naturalmente, beneficiado do surgimento de novos formatos de lojas, que lhes permitem optar por fazer as compras nas lojas mais adequadas às suas necessidades, desejos e expectativas.
Mas, para muitos dos grandes operadores do mercado a mudança não tem sido fácil. A concorrência feroz e a fragmentação do mercado tem-nos obrigado a depender, cada vez mais, da realização de promoções agressivas, em prejuízo da margem, para cativar os clientes.
Adicionalmente, a diminuição da taxa de natalidade na Europa, o aumento dos preços dos bens alimentares, a estagnação dos níveis salariais e o aumento da pressão fiscal sobre os contribuintes têm tornado cada vez mais difícil fazer crescer o negócio em mercados desenvolvidos, como é o caso do europeu.
Para Steve Matthesen, Presidente da Acosta - consultora norte-americana especializada em retalho e consumo -, o novo paradigma do setor passou a ser “go small ou go home”. Qualquer coisa como, “diminua a dimensão ou está tramado”. A localização próxima e a especialização são a tendência, atual e futura, que estão a fazer mexer o negócio.
Uma loja mais pequena implica para os retalhistas: menor investimento; menor custo de manutenção; menor empate de capital; maior rotação de produtos; melhor nível de rentabilidade das vendas e do investimento; ou seja, um melhor desempenho económico-financeiro. Permitem, ainda, disponibilizar produtos mais frescos, um serviço mais personalizado, uma localização mais conveniente, logo, clientes mais satisfeitos. Perde-se na variedade do sortido e na disponibilidade de produtos em loja mas, com o aumento da oferta de produtos personalizados e recomendados, estes dois requisitos ganham um novo significado.
De facto, as pessoas, hoje, querem conveniência, rapidez e produtos frescos e de qualidade. O preço não é o fator mais importante, na hora de se decidir o local onde se fazem as compras. Segundo o estudo “Global Retail-Growth Strategies”, da Nielsen, o valor não decorre do preço. Os consumidores apreciam mais a qualidade / frescura dos produtos (57%), a localização conveniente (56%) e a disponibilidade do produto em stock (54%), do que o preço baixo.
Acresce que, para a maioria das pessoas, a realização das compras mais correntes são encaradas como um dever e não como uma experiência agradável. Na verdade, segundo o estudo da Nielsen, cerca de 46% dos consumidores tentam fazer as suas compras o mais rápido possível. Este baixo nível de satisfação decorre da crença de que os retalhistas não entendem nem satisfazem as suas necessidades de forma conveniente.
Com a vida a tornar-se cada vez mais rápida, as pessoas clamam por conveniência em tudo nas suas vidas. Desde a loja que escolhem para fazer as suas compras até à comida que comem. À pergunta sobre os atributos que mais influenciam a decisão de um comprador na escolha de uma loja em particular, os europeus priorizam: a localização conveniente da loja (56%); a organização da loja (layout) de forma a facilitar a compra (41%); a facilidade de entrar e sair, rapidamente, da loja (38%); e a simpatia e competência dos colaboradores (38%).
As Nações Unidas projetam que, em 2050, cerca de dois terços da população mundial viva em áreas urbanas. Aliás, em 2014, as cidades já acomodavam 54% da população mundial. Mais pessoas significam mais consumo, logo, atrás das pessoas virão mais retalhistas para as cidades.
O retalho está a adaptar-se à mudança dos tempos e os grandes operadores têm a vantagem de perceber e, até, antecipar as grandes tendências no consumo e, de forma ágil, adaptar as suas estratégias e políticas comerciais.
Não é, pois, de estranhar o fenómeno que está a acontecer em Braga. Com o concelho a registar um ligeiro crescimento demográfico, mas em contraciclo com o país, já se está a sentir o surgimento de novas unidades de retalho alimentar e não alimentar. Cada vez com localizações mais centrais (por uma questão de proximidade e conveniência) e de dimensão mais pequena (para permitirem atingir níveis de rentabilidade das vendas e do investimento o mais alto possível).
Chegamos à era do retalho de proximidade. A era em que os pequenos formatos é que conduzem a grandes resultados.

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