O acesso ao ensino superior para além dos destaques

Voz às Escolas

autor

José Augusto

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Amultiplicação dos canais de comunicação e a necessidade da reprodução imediata de qualquer notícia parece induzir uma tendência inexorável de uniformização da leitura da realidade. Inesperadamente, ou talvez não, a informação maciça e a pressa de (re)produzir reduziu a margem para a intermediação crítica entre o emissor e os recetores das notícias, tornando os meios de comunicação social em meras caixas de ressonância dos comunicados à imprensa devidamente “trabalhados” pelos avençados da comunicação institucional. Assim, paradoxalmente, a era da “comunicação de massas” pode ser também a era da “manipulação de massas”.

Considerando a relevância única na vida dos jovens finalistas do ensino secundário e das respetivas famílias, bem como o impacto na sociedade portuguesa, a publicação dos resultados do concurso nacional de acesso ao ensino superior público merece redobrada atenção de todos. Porém, uma vez mais, na generalidade dos meios de comunicação social repetiram-se as reproduções acríticas dos destaques “prontos a servir” disponibilizados à imprensa. Não que tenha de concluir desta afirmação que houve informação omitida, pelo contrário, foi divulgada muita outra informação, com suficiente detalhe para proporcionar ou análises e outras leituras. Mas, raramente, há tempo ou espaço para explorar outras possibilidades de leitura ou para construir destaques alternativos e, eventualmente mais incómodos ou menos simpáticos para os poderes de turno.

Sobre o concurso de 2017, os destaques que mais ecoaram são verdadeiros. Todavia, retomando algumas linhas de análise já usadas neste espaço de opinião, a propósito do concurso de 2015 (vd. crónica de 10/0972015), verificamos novamente verdades menos simpáticas: este ano, voltou a aumentar o número de candidatos que não obteve colocação e voltou a não ser notícia!
Vejamos, uma vez mais, os números. No concurso deste ano ficaram colocados na 1ª fase 44.914 candidatos, ou seja, mais 1.956 que em 2016, contudo, ascendeu a 7.520 o número de candidatos que não obteve colocação quando, no ano anterior, tinham sido 6.514. Uma vez mais, este dado seria facilmente notado se tivessem reparado que a taxa de colocação caiu de 86,8% para 85,7% - a mais baixa desde 2009.

A explicação continua a ser simples: apesar do incremento significativo do número de candidatos (de 49.472 para 52.434), que vem crescendo desde que batemos no fundo em 2013, continua quase estagnado o número de vagas autorizado às instituições de ensino superior público (50.838 em 2017, apenas mais 150 que em 2016 e semelhante a 2014).
As famílias e os jovens voltaram a acreditar no futuro e a apostar na educação superior, porém, o Estado, apesar do discurso, parece ter dificuldade em apoiar, de facto, esse entusiasmo renovado.

É preciso recuar a 2011 para encontrar um número mais elevado de jovens colocados no ensino superior público através de concurso nacional de acesso. Esse é um facto positivo e um destaque relevante sobre o concurso de 2017. Porém, é preciso não esquecer que aumentou o número de jovens e famílias que viram frustradas as suas expectativas de entrada no curso do ensino superior público objeto do concurso nacional de acesso. É preciso não os esquecer e garantir respostas compatíveis com o investimento dos jovens e das famílias porque, enquanto esperamos que a demografia resolva o problema, estamos a desperdiçar o potencial de milhares de jovens portugueses.

A este propósito, uma breve nota final sobre os resultados do concurso nacional de acesso ao ensino superior na comunidade educativa da Escola Secundária de Caldas das Taipas. Neste concurso, tivemos um aumento ligeiro do número de candidatos (189) e do número de diplomados colocados no ensino superior público (174). Além disso, uma vez mais, obtivemos uma taxa de colocação de 92,1%, bastante superior à taxa nacional que se ficou pelos citados 85,7%, ou seja, mais 6,4% de colocações que a nível nacional.
A nossa Universidade do Minho continua, e bem, a ser a escolha prioritária dos nossos alunos, com mais de metade das colocações.

Estes números são o resultado de muito trabalho dos nossos alunos, dos nossos professores, das famílias e dos técnicos da escola que os apoiam no seus percursos e, também, na candidatura ao ensino superior. São também o corolário de uma esperança crescente no futuro e no valor da educação escolar que tem mobilizado esta comunidade educativa.
A estas pessoas e a pessoas como estas, o Estado tem obrigação de responder afirmativamente e de implementar medidas de política educativa congruente com o discurso de progresso no que às necessidades de qualificação dos portugueses diz respeito.

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