Olá Professor… (lembra-se quando falamos há 4 anos?)

Escreve quem sabe

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Cristina Palhares

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-Olá Professor. Eu soube que se celebra este dia porque a ONU, em 1994, quis homenagear todos os que contribuem para o ensino e para a educação da sociedade, chamando assim a atenção para todos aqueles que escolheram o ensino como forma de vida. Infelizmente, em Portugal, não temos dado muita importância por causa das comemorações da implantação da República que coincidem com este dia, o que é pena. Pois, e este ano, ainda mais. Com as eleições legislativas quase ninguém falou de si! Mas não se importe, Professor. Eu também já reparei que quase todas as pessoas importantes só são reconhecidas e lembradas quando morrem. E o que vale é que o Professor não morreu ainda, nem vai morrer nunca! Por isso não terá grandes homenagens, para grande pena minha. Mas terá sempre a melhor homenagem de sempre: a dos seus alunos. Daqueles que todos os dias se sentam à sua frente para o ouvir, para lhe responder, para lhe mostrar, para aprender consigo… para viverem consigo algumas horas dos seus dias. Dia após dia, Professor. E são estes alunos que normalmente, anos volvidos de passarem pelas suas mãos, o reconhecem, lhe agradecem, lhe são gratos para a vida. “Claro que o mérito foi todo da minha diretora de turma, que apostou em mim!”. “Se não fosse o meu professor de francês…”. “Hoje estou na universidade porque o meu professor de matemática sempre me incentivou. Ele acreditou em mim”. Enfim, um sem número de frases destas que ainda hoje ouve, eu sei! A escola, desde sempre, sabe que para lá de todos os recursos materiais exigidos e exigíveis tem sempre em permanência o maior recurso que qualquer aluno merece: o professor. E eu sei que o Professor percebe bem o que isto quer dizer. Sempre será o maior, o melhor, o único recurso que não se gasta, que não sai de validade, que não precisa de tinteiro, que não precisa de corrente elétrica, que não precisa de manuais, que não precisa de paredes nem tão pouco de teto. É-o em qualquer lugar do mundo. Em qualquer lugar do mundo… uauuuu. Que bom, Professor. Serei eternamente grato a tudo o que aprender consigo, a tudo quanto me levar a aprender, a tudo quanto me ensinar. Ensine-me, Professor! Que a sua sala de aula onde eu estou seja sempre este canto pequenino do mundo tão grande, tão grande, mas que cabe aqui na perfeição. Porque nos leva a admirar: o mundo que nos rodeia, as relações que estabelecemos, os amigos com quem partilhamos o nosso dia a dia. “Admirar” é olhar o outro por dentro, o reconhecer o porquê das nossas relações é, numa palavra, compreender. E sabe quando o admiramos mais Professor? Quando promove a nossa autoestima. Que só se faz através do elogio. Do elogio puro e duro, como gosto de dizer: 'és o máximo', 'trabalho bem feito', 'boa ideia'. Saber dizer-nos o quão importante somos para si. São pequenas palavras, pequenos gestos, que fazem toda a diferença. No corredor, na sala de aula, nos espaços comuns, na escola! O elogio às características pessoais ajuda à crítica que pode vir a ser necessária. E parece fácil! Mas não parece, não. É fácil mesmo! Vale a pena experimentar, vai ver! Uma outra forma Professor, uma outra forma de o admirarmos é transformar-nos em leitores. Como? Desconstruindo o que tantas vezes nos transformou em não leitores. Não leitores porque os objetivos que a literacia impõe estiveram sempre aliados ao imperativo: “Lê”! E este imperativo não destrói livros, destrói sim leitores. 'O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo amar... o verbo sonhar...'. Nas escadas de uma escola desta cidade podemos ler, à medida que as vamos subindo, os 10 Direitos inalienáveis do leitor descritos por Daniel Pennac:
1. O direito de não ler;
2. O direito de saltar páginas;
3. O direito de não terminar um livro;
4. O direito de reler;
5. O direito de ler qualquer coisa;
6. O direito de confundir o livro com a vida real;
7. O direito de ler em qualquer lugar;
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali;
9. O direito de ler em voz alta;
10. O direito de calar.
“Ler sem cobrar”, apenas pelo prazer de ler. O Professor que não tem nos livros a sua forma de viver não deveria ensinar. O Professor que não tem paixão pela escrita não deveria ensinar a escrever.
É preciso que a sua fala transmita uma verdade que vem de dentro, nunca de fora.
Lembra-se Professor?
Quando diziam que o seu papel é o de alcoviteira? Que era o Professor que devia fazer o elo entre nós e o livro, casar-nos para sempre? Quando se sugere um livro é para partilhá-lo, é uma prova de amor, queremos que o outro leia aquilo que foi importante para nós em certo momento da vida. Damos a ler aquilo que nos é mais caro. Partilhamos com o outro a nossa paixão pelo livro. Identificamo-nos com o que sugerimos. Quem lê o que sugerimos lê-nos também… nas entrelinhas. Por isso, Professor, temos coisas importantes para este ano letivo: continue a ser o nosso melhor recurso porque nunca se esgota, o nosso maior admirador porque nos elogia, e a nossa maior alcoviteira, transformando-nos em leitores inalienáveis.
Porquê? Porque nós também faremos o mesmo: seremos o seu maior recurso, os seus maiores admiradores e partilharemos consigo os nossos livros, as nossas leituras. Seremos importantes um para o outro. Um bom ano, Professor.

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