Da importância dos comportamentos

Ideias

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Margarida Proença

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Todos os anos se discutem os programas a lecionar, e os pais se preocupam com as escolhas adequadas para as escolas dos seus filhos. Ainda que na verdade os processos de escolha dos estabelecimentos escolares seja complexo, e não caiba aqui a sua discussão, digamos que de uma forma genérica, se procura-se garantir um ensino de qualidade e exigente, professores com formação e envolvimento, um currículo diversificado, complementado por outras atividade, tudo aquilo enfim que possa contribuir para um acréscimo das capacidades e habilidades cognitivas dos alunos.

Ao nível do ensino primário, por exemplo, isto traduz-se na aquisição de capacidades ao nível da compreensão e do raciocínio lógico - analisar, interpretar, relacionar, classificar, induzir e deduzir, etc., mas também revelar destreza em termos da linguagem, da escrita, do vocabulário, da leitura, da matemática, por aí fora. Assim se forma o capital humano, que é fundamental quer do ponto de vista do indivíduo em si, quer enquanto fator que contribui para o crescimento e o desenvolvi- mento económico das sociedades.

Recentemente, tem vindo a ser chamada a atenção para a importância do desenvolvimento das capacidades não cognitivas individuais, e para o papel que podem desempenhar ao longo da vida para a produção de valor, e para o impacto que podem ter em termos de emprego. Por capacidades não cognitivas entendem-se padrões de comportamento, traços de personalidade, atitudes e motivações, e curiosamente, a literatura relevante tem vindo a demonstrar, por um lado, que os sistemas de ensino formal e de formação profissional são importantes no seu desenvolvimento, e por outro lado que podem fazer a diferença para explicar o desempenho profissional.

Claro que como sublinha um anúncio que repetidamente corre agora pelos meios de comunicação, não somos todos iguais - “não somos todos farinha do mesmo saco,”, ou seja, existem obviamente diferenças que remetem para fatores genéticos, e tem havido também alguns estudos que suportam a relevância da cultura na resposta a determinadas normas (por exemplo, a pontualidade ou a orientação para resultados). Já a maturidade social, a motivação para a liderança, perseverânça, atividade e energia, bem como estabilidade emotiva e tolerância ao stress têm vindo a ser associados com uma probabilidade mais elevada de obter rendimentos mais altos ao longo da vida.

O crescente desenvolvimento tecnológico, que tem vindo, ou poderá vir a permitir uma tendencial substituição dos homens pelas máquinas, remete funda- mentalmente para a substituição de competências cognitivas por computadores. No entanto, as competências não cognitivas, de natureza fundamentalmente comportamental, são muito mais difíceis de substituir, e logo com o tempo, poderão vir a tornar-se mais relevantes no mercado de trabalho. Um autor chamado Deming, num estudo publicado este ano, mostrou que, no caso dos Estados Unidos, e entre 1980 e 2012, o maior crescimento em termos de emprego e nível salarial ocorreu em profissões que exigiam simultaneamente capacidades sociais elevadas, bem como em termos de matemática. Indica ainda que o retorno, no mercado de trabalho, ás competências sociais têm vindo a tornar-se cada vez mais importante, por comparação digamos com o que sucedia nas décadas de 80 ou 90.

Por outro lado, competências não cognitivas mais elevadas facilitam aos indivíduos não caírem, ou saírem com mais facilidade de situações no mercado de trabalho que induzem apenas tarefas mais fáceis, e portanto com menor valor acrescentado e menor retorno salarial.
Este tipo de competências ainda que remeta também para traços de personalidade, pode ser desenvolvido em contexto familiar e formativo formal, ou seja, nas escolas.
Mas a maior exigência ao nível da formação das normas na sociedade, ao nível da consciência mais elevada do rigor necessário a quem contribui para formar opiniões e divulgar informação, ao nível do estabelecimento de abordagens efetivas que permitam contribuir para comportamentos éticos e anticorrupção.

Métodos que permitam aumentar a transparência, reforçar a intervenção e participação ativa, incentivar mecanismos de cooperação, acrescer a competitividade nos mercados, inclusive de trabalho, divulgando oportunidades, focando em fatores como expetativas, comunicação, incentivos, confiança, reforçando nesse sentido o papel das lideranças, acabarão por contribuir também para o reforço das normas sociais e das competências não cognitivas individuais.

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