O “silêncio” dos culpados

Ideias Políticas

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Carlos Almeida

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Ninguém terá ficado indiferente à avassaladora vaga de fogos florestais que atingiu o país no passado dia 15.
Lamentavelmente, os portugueses estão habituados, ano após ano, às imagens que retratam a destruição das matas e montes consumidos pelas chamas. Mas não há memória de as consequências assumirem tanta gravidade como neste ano. Mais de cem vidas que se perderam perante a incapacidade de combater as sucessivas catástrofes.

Não haja dúvidas de que a hora é de solidariedade e apoio às vítimas e às suas famílias, em primeiro lugar. São esses os cidadãos mais desprotegidos neste momento, os que perderam familiares, as suas casas, o seu emprego ou investimentos de uma vida de trabalho. São esses os que mais precisam de apoio e respostas prontas do Estado para, de alguma forma, atenuarem a dor e o sofrimento pelas perdas. São esses que precisam de ânimo, medidas concretas para retomarem as suas vidas, os seus rendimentos e a sua subsistência.

Entendo, por isso, que, no quadro de competências da administração pública central e local, devem ser postas em prática de imediato medidas de apoio social e económico a todos que foram atingidos pelos incêndios florestais. Há situações verdadeiramente dramáticas que não podem estar dependentes de comissões, relatórios ou inquéritos, sem prejuízo, obviamente, de que estes se realizem no seu tempo devido.
Esta deve ser a prioridade: cuidar de quem tudo perdeu.

No plano político, por sua vez, há muito por fazer. Agora, não faltam os especialistas ou os comentadores do regime para apontar o dedo. Pena é que tenham memória selectiva, propaguem falsidades e omitam factos importantes, tais como as responsabilidades de governos anteriores em matérias como a prevenção de riscos ou a gestão de meios de combate a incêndios. Quem privatizou os meios aéreos de combate? Quem extinguiu os guardas-florestais? Quem liberalizou o cultivo de eucaliptos? Quem destruiu a agricultura? Podiam esses comentadores de serviço responder a estas questões.

Não faltam também os que da desgraça procurem obter dividendos políticos. Do CDS/PP, liderado pela ex-ministra Assunção Cristas - responsável no anterior governo pelo corte de mais de 20 milhões de euros no orçamento para a defesa da floresta - chega uma moção de censura. Tal contradição evidencia que Cristas não está preocupada com os problemas da floresta, nem com os meios de combate aos fogos, o que a deixa exposta ao lamentável aproveitamento político que quer tirar da situação.

No passado Sábado assistimos a algumas manifestações públicas, a que chamaram de “silenciosas”, em alguns locais do país, nos quais se incluiu Braga. Não quero generalizar, pois sei bem que entre os participantes estiveram cidadãos genuinamente preocupados com o problema dos incêndios em Portugal. Não tenho dúvidas de que muitos saíram à rua com a melhor das intenções, em protesto pela situação, empenhados na procura de soluções.

No entanto, não posso ignorar a desfaçatez de alguns responsáveis da direita política que, com ar angelical e pesaroso, promoveram de forma incendiária os argumentos mais desonestos que podíamos imaginar, procurando mobilizar, através do discurso dominante na imprensa, a justa revolta dos cidadãos em direcção a objectivos político-partidários obscuros.

Não podemos aceitar que os maiores culpados pelo abandono da floresta, pela destruição da produção agrícola, pelo desinvestimento na prevenção e combate a incêndios, apareçam agora ao lado das populações, elas próprias vítimas da sua acção política. Num momento trágico como este, a direita revela-se em “silêncio” e na penumbra, descobrindo a sua face mais manipuladora e agressiva.

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