Balelas

Ideias

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José Manuel Cruz

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Começo, a bem dizer, no ponto em que terminei a crónica precedente. Não será por mania ou miopia intelectual. Ouvia que o Kremlin manobrava para desestabilizar a Espanha, a Europa como um todo. Novidade pouca. Repliquei na outra e por aí me ficaria. Mas eis senão quando apresentam as “provas” e eu caio a meus pés, como desenho animado destituído de substância. Que me sirvam de travessa por onde me lambuze, ao menos. Bate-se como prova o acréscimo de partilhas segundo as quais o castelhano é ensinado como língua estrangeira na Catalunha, e que de Bruxelas teriam chegado avales para reprimir as manifestações, o voto. Fiquei desiludido com o infantilismo maquiavélico do Putin. Mas isto é desinformação para totós, teria eu dito, se reflectisse sobre o assunto.
Formulo uma pergunta retórica: como convivemos nós com a aldrabice? Desfaço uma série de dúvidas, acrescentando que uma inverdade desponta aqui e ali nos lábios de criatura por regra virtuosa, Pedro, inclusive, que o bom Cristo negou conhecer, repetidamente, esquecendo ou não a advertência que o Mestre lhe fizera.
Como porcarias em tubo congestionado, segundas dúvidas dissolvo com filosófica soda cáustica, e sustento que a inverdade se passeia às claras como na viela, na tasca como na chancelaria, nas cúpulas de Estado. De sinal de fragilidade do carácter a estratégia nunca relegada de controlo de comportamentos: ei-la, a paleta de cambiantes da majestática inverdade, demagogia também dita.
Das certezas, uma reservo para doce sobremesa: serve-se da inverdade, em rodízio de buffet, quem dela por demais aproveita. Inventa-se e deturpa-se para desviar atenções, para eleito bode expiatório levar a altar; mente-se para conquistar vantagem e derrotar um oponente. E vale. E aplaude-se. Um senão me fica: por mero exemplo, não saberá, quem um gostinho tenha por civilizações extintas, que não foi com sacrifícios em massa que o apogeu de Maias ou Aztecas foi restaurado? Isto é, os erros de uma cultura não se resolvem com penitências alheias, com calunias a terceiros. Certo, Watson? Esse, pelo contrário, é o caminho seguro da perdição. E o Watson concorda.
Cartas dadas, pergunto, ao leitor que queira acompanhar-me: mas duvidamos nós do apuro de forma a que chegou a demagogia no Ocidente? No seu perfeito juízo, alguém dirá que a teia americana de serviços de vigilância é uma espécie de Estica, por comparação com o Bucha que abafa, controla e reprime em favor dos plutocratas que, a partir do Kremlin, fitam com olho de Silvestre o Piu-piu europeu?
Eu, sempre que se brande o papão russo, salta-me à memória o porta-aviões Almirante Kuznetsov, esse mesmo do qual nos rimos, a despeito das garbosas colunas fuliginosas libertadas no Atlântico, em cruzeiro de socorro ao Bashar al-Assad. Parecia saído da rábula do Solnado. Muito me espanta também que os piratas informáticos, que os grandes demónios da manipulação sejam russos ou que para eles trabalhem. Ao fim e ao cabo: quem inova? Onde se situam as grandes catedrais do digital? Passamos da histeria nuclear à digital, mas seguimos histéricos. Saberíamos lá ser outra coisa!
Não bate a bota com a perdigota. Terão os britânicos feito um manguito à Europa por putina manipulação? Terá o alemão da cadeirinha destratado gregos e portugueses por putinice? Estará o selecto clube de Estrasburgo inquinado por putinheteiros?
Balelas! Melhor oiço a Cuca Roseta, que bela voz tem, e outros atributos que aqui não vêm a calhar.

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