Correio do Minho

Braga, quarta-feira

6.º Festival de Órgão – Um retorno às novidades da tradição musical

Férias ecológicas

Escreve quem sabe

2019-05-22 às 06h00

José Hermínio Machado

Terminou o 6.º Festival de órgão da cidade de Braga, com uma programação dedicada a «o órgão e a voz», incluindo, portanto, no conjunto dos concertos, o desempenho de vozes, ora individualmente ora em colectivo. À semelhança dos anteriores e numa continuidade de criação de mediadores culturais, a organização elaborou e disponibilizou um catálogo e uma edição de discos de concertos passados, para além de ter organizado eventos paralelos, como a visita guiada ao órgão recentemente recuperado da Igreja dos Terceiros, ou o prémio de composição, ou o concerto de «Jovens músicos».

Pelas personalidades e instituições envolvidas e pelos patrocinadores desta programação, vemo-nos perante um evento cujo peso institucional é seguramente garantido em termos de prestígio e qualidade, seja pelos órgãos e palcos disponibilizados, seja pelos músicos executantes convidados, cabendo aqui uma palavra de louvor e de agradecimento ao trabalho do director artístico do festival, José Rodrigues. A grande novidade do Festival deste ano esteve na introdução da música vocal e instrumental proveniente do repertório do fado e do cante alentejano, o primeiro coma presença da fadista Ana Ferreira e do guitarrista Marco Quaresma, o segundo coma presença do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, o qual se fez também acompanhar do tocador de viola campaniça Pedro Mestre.

O Festival de Órgão consolidou-se como acontecimento estrutural na cultura musical da cidade, ou seja, comprovou indelevelmente a necessidade da documentação do imaginário musical que foi produzido, criado e recriado, para órgão de tubos, esse instrumento que, principalmente a Igreja católica, mas também o poder régio e os poderes institucionais ligados ao ensino e usufruto da música, foi consagrado como o mais completo na reprodução e superação dos sons naturais e o mais integrador dos valores sonoros expressivos para as funções de acompanhamento e de animação da vida espiritual dos povos.

O nosso ouvido contemporâneo faz, com este Festival singular, uma viagem de recuperação e de integração do acumulado sonoro que, este ano desde o princípio do século XVI, foi educando e influenciando sucessivas gerações de receptores e de criadores, com repercussões nos mais variados estilos repertoriais, eruditos ou populares, como se comprova quando se aproximam géneros musicais, incluindo os de consumo popular, como o fado e o cante alentejano. As vozes do órgão acabam por adquirir aquele estatuto de vozes ou sons fundadores de nossos ouvidos musicais, não só por as vermos concretizar toda a espécie de sons naturais, incluindo o cantar de pássaros, o das águas e o dos ventos, mas também por as sabermos recriadoras de todos os sons da orquestra, com uma intensidade de realização que satisfaz os ditames da expressividade mais exigente.

Por momentos, fixemos no ouvido as improvisadas variações com que o organista Thierry Mechler nos presenteou a recepção coral que tínhamos feito da moda do meu chapéu, com uma insistência na sua cadência melódica, na sua transposição para vários registos de sonorização e de expressão e na sua percepção de que tal cantar sedimenta uma das nossas principais apropriações da música coral polifónica popular, a de ela ser a expressão de um colectivo, de um modo de estar na planície e na aldeia. Com o fado, experimentámos a função harmónica do órgão, discreta mas absolutamente sustentadora da melodia, transportadora da sua realização individual para outras sonoridades.

O repertório dos clássicos consagrados em toda a História da música, como Rameau, Pedro de Araújo, Bach, Mozart, Handel, Scarlatti, para referir só alguns, a par das escolhas para as vozes soprano e barítono, orquestra e coro, tornaram este 6º Festival um autêntico retorno à acumulação musical que nos estruturou civilizadoramente e à qual deveremos sempre regressar para a compreensão de suas novidades, no tempo e agora em nosso presente, nesses espaços fabulosos que são as igrejas de Braga onde se guardam os órgãos de nosso encantamento.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.