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A “aliança dos extremos”

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A “aliança dos extremos”

Ideias

2019-01-31 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Há um ambiente propício, à escala global, para a escalada dos extremismos e radicalismos, apesar dos indicadores sociais e de desenvolvimento positivos. A globalização, apontada como a mãe de todos os males, retirou milhões da pobreza, permitiu o aumento da esperança média de vida e melhorou as condições de vida da maioria da população mundial. Mas, obviamente, nem tudo está bem. Há ainda desigualdades inaceitáveis, fome em muitos (demasiados) cantos do globo e violações diárias dos direitos humanos. Mesmo assim, as condições de vida da população são, sem dúvida, melhores agora. Contudo, a perceção tem piorado!

A memória vai desaparecendo. A perceção do que nos falta conseguir é muito superior à perceção do que já conquistamos. As redes sociais - onde só há gente com uma vida boa e feliz - contribuem para a cultura do imediato, para a necessidade de viver no momento. O insulto fácil nas redes sociais, a superficialidade, a manipulação, os perfis falsos, as notícias falsas são uma constante. A radicalização e o extremismo são facilitados. Os algoritmos “fortalecem” a ideia de que não estamos sós e o nosso pensamento é que está certo. Perdeu-se a paciência para os resultados, o médio prazo, a concretização de ações que modernizem os Estados. Estão criadas as condições em campo aberto para o populismo e a propagação do ódio. Trump, o Brexit, os nacionalismos… são os sintomas, não são a causa. A causa é a perda de valores, o egoísmo, a procura do imediato.

Tenho escrito repetidamente que o Mundo precisa de moderados. Os extremos alimentam-se mutuamente. No Parlamento Europeu, em mais de 90% dos votos, o Bloco de Esquerda e o PCP votam no mesmo sentido que a extrema direita de Marine Le Pen. Aliás, o discurso e as causas de Marine Le Pen, retirando a questão das migrações, é muito semelhante ao discurso e às causas do PCP e do BE: ambos se arrogam que são os verdadeiros e únicos representantes dos trabalhadores, querem a saída do Euro, são contra a União Europeia. Nem sempre há consciência desta “aliança” involuntária entre a extrema esquerda e a extrema direita.

Olhemos para o que se passou depois da intervenção policial no denominado Bairro da Jamaica. Se o PSD estivesse no Governo, o PS, o PCP e o BE estariam a dizer que tudo o que se tinha passado era resultado da insensibilidade social do primeiro-ministro e a consequência da austeridade e das políticas neoliberais. Se a Câmara do Seixal fosse do PSD, acrescentariam que o executivo municipal não tinha políticas de inclusão e que a habitação é um direito que estava a ser vergonhosamente desrespeitado. Como o Governo é do PS, com o apoio do PCP e do BE, e como a Câmara do Seixal é liderada pelo PCP, perdem estes argumentos e fazem como o Bloco de Esquerda, que se “atirou” à polícia através de uma das suas deputadas e que teve um assessor parlamentar a rotular a polícia de “Bosta de Bófia”. É evidente que estas despropositadas afirmações são incendiárias. A consequência foi a extrema direita procurar tirar vantagem, marcar manifestações e confrontar na rua, para colocar nas redes sociais, uma “conversa” provocatória entre a extrema direita e o referido assessor parlamentar do Bloco de Esquerda. Esta é a prova de que, ainda que de forma inconsciente, os extremos se alimentam mutuamente.
As forças policiais são essenciais para a nossa segurança, liberdade e defesa do Estado de Direito. E isso é inquestionável.

Para agudizar esta situação, António Costa, quando questionado, pela líder do CDS-PP, sobre se afinal “condena ou não esses atos de vandalismo, defende ou não a autoridade policial e o que vai fazer para que sejam episódios isolados?”, responde: “Está a olhar para mim, deve ser seguramente pela cor da minha pele que me pergunta se condeno ou não condeno a violência”.
Não acreditava no que tinha ouvido. A resposta de António Costa é inaceitável, demagógica e incendiária. Não contribui para a urgente pacificação e o fim da aliança dos extremos. É uma acusação demasiado grave para ser proferida por um primeiro-ministro, ainda para mais num debate na Assembleia da República.

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