Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

A cidade deve “ruralizar-se”

Sem paralelo

Ideias

2014-10-23 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Em Portugal, 41% da nossa população e mais de metade do Produto Interno Bruto (PIB) concentram-se nas áreas metropolitanas do Porto e Lisboa, que em termos territoriais representam apenas 2,1% de Portugal continental!
Este desequilíbrio prejudica todo o país e as próprias grandes áreas metropolitanas. Neste artigo falo de cidades, sabendo, por exemplo, que nestas duas grandes áreas metropolitanas nem tudo é cidade, e confundindo por vezes cidades e zonas urbanas.
Sou um acérrimo defensor da ruralidade, da coesão territorial, das raízes e tradições. Considero que a excessiva atractividade das cidades, e nomeadamente das grandes áreas metropolitanas, somada ao desinvestimento no mundo rural, terá um custo enorme. Tal não significa que sou contra as cidades. Bem pelo contrário! As cidades também ganham com a coesão territorial.
Na União Europeia (UE), aproximadamente 70% da população vive em áreas urbanas, sendo estas responsáveis pelo consumo de 70% da energia da União Europeia. Os congestionamentos de trânsito automóvel custam à Europa, anualmente, cerca de 1% do seu PIB, ou seja, o montante do orçamento anual da UE.
No mundo, as cidades contribuem decisivamente para o efeito de estufa, sendo responsáveis por 80% das emissões globais de CO2 e 75% do consumo mundial de energia. Em cada 2 horas e meia, há um aumento de 20.000 pessoas nas zonas urbanas (no Ocidente esse aumento fica-se por umas centenas e nos países em desenvolvimento atinge os restantes milhares).
As cidades têm um papel relevante nos desafios mundiais da demografia, escassez de recursos naturais e das alterações climáticas. O crescimento da população mundial de 7 mil milhões para 9 mil milhões vai obrigar a um aumento da produção alimentar na ordem dos 70%. A poluição do ar, a segurança, as questões ambientais são problemas que se agravam nas cidades.
É neste contexto que também facilmente percebemos o alcance e o impacto das alterações climáticas - um fenómeno para o qual todos vamos começando a ganhar consciência de que nos diz respeito directamente e nos atinge no nosso dia-a-dia, como facilmente constatamos agora, com a instabilidade e imprevisibilidade cada vez mais acentuada das temperaturas e condições climatéricas, ora com surpreendentes temperaturas elevadas ora com inundações, que serão seguramente ainda mais frequentes, nomeadamente nas cidades.
Perante os exigentes desafios com que nos deparamos, são inaceitáveis e serão incompreensíveis posturas de resignação ou impotência. Para além da prevenção, há sempre, no mínimo, a possibilidade de mitigar. É inaceitável que se afirme, por exemplo, que perante as cheias numa cidade como Lisboa, o presidente da Câmara António Costa afirme que “não se pode fazer nada”. Pode-se e deve-se fazer!
A UE lançou uma Parceria Europeia para a Inovação ‘Cidades e Comunidades Inteligentes’ (Smart Cities and Communities). O objectivo é perceber a melhor forma de projectar e adaptar as cidades em ambientes inteligentes e sustentáveis. Pretende-se impulsionar o desenvolvimento de tecnologias inteligentes, reunindo instrumentos de pesquisa e investigação em áreas como energia, transportes e tecnologias de informação e comunicação (TIC), em condições de serem implementados em parceria com as cidades.
A inovação, direccionada para impulsionar a competitividade da Europa, será capaz de garantir modelos de eficiência energética e sistemas de transporte e mobilidade melhor adequados às novas exigências, tanto para as pessoas como para as empresas e indústrias, superando simultaneamente dificuldades e constrangimentos que possam advir das novas alternativas. Sistemas de alta eficiência para aquecimento e refrigeração, contadores inteligentes, gestão de energia em tempo real ou mesmo edifícios de ‘energia zero’, assim como sistemas mais eficientes de abastecimento de água e transportes menos poluidores e convencionais, podem evitar prejuízos não só em termos económicos e ambientais, mas também de saúde e vidas humanas.
A cidade tem de conciliar memória e património, com sonho e mudança.
Na cidade há estigmas a eliminar. Se um crime acontecer na cidade, a culpa é do bairro problemático, da ausência de programas de inserção, do desemprego… enfim, a culpa é da própria cidade. Mas se o crime acontece no mundo rural, a culpa é do criminoso.
A cidade tem ser um 'ser vivo' onde haja democracia, liberdade, plena participação, proximidade e solidariedade. As novas tecnologias deverão contribuir para tal, no respeito da privacidade e protecção de dados. Este 'ser vivo' necessita de humanidade, precisa de espaços verdes, ar puro para respirar.
A cidade deve 'ruralizar-se'.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.