Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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A cor do poema

Eu, Fausto.

A cor do poema

Voz aos Escritores

2019-03-22 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Ontem caminhei nos trilhos de Sistelo, subi entre socalcos plenos de ervas e de heras, inebriei-me de cores, carreguei a pilha delas. Ao mesmo tempo, sorvi sons e cheiros que dificilmente esquecerei. Hoje, levantei-me às sete horas da manhã. Apeteceu-me ir com Garrett ao vale de Santarém. Há muito tempo que não leio as «Viagens na minha terra», romance que libei muitas vezes num passado já longínquo. O tempo, esse lapso em que as coisas acontecem e que cobre, poeticamente, o chão de verde manto, gosta de brincar connosco, ora nos leva nas suas asas ao passado ou ao futuro, ora nos senta numa simples secretária. Vou, então, com Garrett, ao vale de Santarém. Não sei se ele viu uns campos verdes, da cor de limão, uma mulher bela, descalça, a passear na verdura, e mais além, num tufo de folhagem, um braço ao redor de um pescoço e um braço apertando uma cintura. Penso que não viu, mas vejo eu, que tenho presentes Camões e Cesário. Há por ali sinestesias, umas brancuras quentes, tudo o que a visão amorosa pode suscitar. Mais à frente, num jardim adornado ainda de verdura esmaltado por flores, parece-me ver a deusa dos amores, de mão dada com a deusa da caça e da espessura. Camões não se importará que me aproprie dos seus versos, mas ouço-o perguntar: menina dos olhos verdes, porque me não vedes. E vejo-o de joelhos, com esperanças de amar. O nosso poeta era assim, via verdura em tudo, nos campos e nas hortas com rosas e flores, e nelas descobria quem as regasse e o matasse de amores. No prolongamento dos olhos, filas de pinheiros cortam geometricamente a paisagem. Ao fundo, o vale, alguns pontos minúsculos que parecem casas, vacas e ovelhas a pastar. Tinha na ideia especar os olhos na janela da Joaninha, mas não vejo casa, nem janela, a não ser que me surja repentinamente atrás de uma qualquer elevação. Trine a campainha. É o carteiro. Volto à secretária, organizo o caos imagético, fecho os olhos para me concentrar melhor e sim, agora vejo um vulto de cabelos longos, saia rodada e blusa às bolinhas. Será ela, a menina dos rouxinóis? Preciso de ver-lhe os olhos, de olhá-la mais profundamente, para saber se são pretos, se da cor dos prados. Vermelhos não serão, só se forem de chorar. Ai, que os quero verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate. Não sei porque os quero assim, é com certeza influência do alucinado personagem, ou influxo da simbologia dicionarística que me ocupa muitas vezes a mente. Caio no verde, tudo é verde em pensamento, mas podia ser azul, ou castanho. Vermelho não, que é cor de inferno, e hoje desejo recostar-me na maciez branca das nuvens. Sempre me preocuparam as cores dos poetas e daqueles romancistas que vibram com a cor dos olhos, como o nosso Garrett. Por isso desgosto dos que não expõem qualidades em prol da ação, representada por verbos de movimento. A ação avança, por vezes aos solavancos, mas não se percebe como ficam as personagens, se tristes, se alegres, se profundamente apaixonadas. Aproximo-me do vulto de cabelos longos e não, não é a Joaninha. Esta tem feições citadinas, cheias de luzes da civilização moderna, uns olhos que parecem castanhos e que prolongam em multiplicação fractal as bolinhas da blusa metida por dentro. Poderão perguntar sobre a importância das cores, dos olhos, da face ou da envolvente natureza, mas desde o Rimbaud que aprimorei a investigação.
Ontem perdi os olhos na lonjura de Sistelo, lembro-me de me ter sentado numa pedra do caminho e de ter esboçado mentalmente um poema. Sobressaíam nele o azul do céu, o verde dos socalcos e uns tons escuros e brancos advindos de asas em movimento. Talvez melros, ou estorninhos. Haveria melros e estorninhos no vale de Santarém? Serão as cores coadjuvantes do amor? Agora não posso responder a esta pergunta, tenho de ir à Avenida, mas prometo voltar ao vale mais logo, e fazer umas perguntas ao Antero, ao Bocage, talvez ao Carlos de Oliveira. Ah, sim, ao Carlos de Oliveira mais a sua «Finisterra», a paisagem e o povoamento.

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