Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A crise e a honra dos políticos

Sarrabulho e kizombada

Ideias

2012-03-05 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Nesta última semana ficamos a saber que morreram em Portugal, durante o mês de Fevereiro, 11 600 pessoas, verificando-se 1600 mortes a mais do que nos anos anteriores. Na semana de 20 a 26 de Fevereiro morreram 3080 pessoas, mais 600 que nos anos anteriores.
Estas mortes foram consequência do frio e das doenças próprias desta época, mas também consequência dos fracos (ou inexistentes) recursos económicos de muitas pessoas, que os impede de terem uma alimentação e cuidados de saúde adequados.

No grupo dos mais fragilizados encontram-se as pessoas mais idosas, aquelas que passaram a maior parte da vida a trabalhar e a dar valor ao seu país, e agora sobrevivem como autênticos embaraços da sociedade actual. A frase proferida por muitos doentes, e transcrita no jornal Correio da Manhã (3 de Março de 2012), é arrepiante: “Ou há dinheiro para comer ou para os medicamentos.”! Ainda segundo esta fonte, o aumento das taxas moderadoras e o pagamento dos transportes por parte dos doentes, são outros dos factores que poderão estar na origem do elevado número de mortos verificados no nosso país. Outro factor ainda é o aquecimento das casas, que foi diminuído devido ao brutal aumento do preço da electricidade.

Temos assistido em vários países, e em várias épocas, a julgamentos de políticos acusados pelo estado caótico com que deixam (ou contribuem para deixar) o seu país. Verificamos, em casos extremos, a prisão dos que são responsáveis pelos atentados que cometem contra os seus próprios compatriotas. E a questão que se deve colocar, neste momento, é saber se aqueles que são responsáveis pelos destinos económicos do país; aqueles que tomam medidas de grande rigor e austeridade contra o seu “próprio povo”, não poderão ser julgados pelas medidas que tomam.

Que tranquilidade, que sossego, terá uma pessoa, ao ter conhecimento que as medidas que tomam prejudicam os seus concidadãos, levando-os ao desespero, ao sofrimento e à morte?
O nosso país vive um momento de grave crise económica, mas também de sobrevivência social. A Grécia, a Espanha ou a Itália estão a passar por momentos semelhantes. Mas os seus políticos estão a dar um exemplo de honra e de elevação moral, ética e social, ao abdicarem dos seus ordenados.

Para que não restem dúvidas, basta recordarmos que o presidente Grego, Karolos Papoulias, renunciou ao salário que auferia como presidente da Grécia, para dessa forma contribuir não só para a recuperação financeira do país, mas fundamentalmente para dar o exemplo. Na mesma linha, o primeiro-ministro grego, Lucas Papademos, renunciou no dia 1 de Março deste ano, ao salário que auferia enquanto chefe do Governo Grego, e com retroactivos desde a sua tomada de posse, que foi em Novembro do ano passado. Também o primeiro-ministro italiano, Mario Monti, renunciou ao seu salário, em Dezembro de 2011, ou seja, desde a sua tomada de posse.

Estes são apenas três exemplos de grande elevação moral dos chefes de governo de dois países em crise. Com esta atitude, estes três líderes demonstraram aos seus compatriotas que não estão a ocupar cargos públicos por interesses pessoais e económicos, mas antes como uma missão de contribuir para o desenvolvimento dos seus países. Podemos apontar críticas a estes três dirigentes, mas nunca o de ocuparem cargos públicos por interesses económicos e pessoais.

A situação em Portugal está totalmente oposta: verificamos que o Presidente da República ocupa este cargo de enorme prestígio e responsabilidade, mas tendo como grande preocupação a sua sobrevivência económica. Verificamos, pois, que este cargo é ocupado para ganhar dinheiro para o sustento da família!

Verificamos ainda que o primeiro-ministro, do qual não se conhece uma carreira profissional de grande mérito, usa este importantíssimo cargo para a sua sobrevivência económica e da sua família!

Verificamos ainda esta tendência um pouco por todo o país. Ou seja, quem ocupa cargos de destaque nas administrações públicas, fazem-no, não por interesse puro pela contribuição que podem dar ao desenvolvimento da empresa ou da administração, mas tendo antes como grande preocupação os rendimentos económicos que irão auferir nestes cargos, o que desde logo os condiciona e diminui.

No entanto, os políticos portugueses nem sempre foram assim. Por isso, vou terminar com um exemplo que ocorreu no nosso país, em 1892: vivíamos, então, uma grave crise económica, sendo o governo liderado pelo professor José Dias Ferreira (ficou conhecido por ‘Zé Dias’), Este, tomou grandes medidas de austeridade, nomeadamente a suspensão das admissões na função pública, o corte de vários subsídios que o estado concedia, o aumento de impostos nos ordenados e nos juros da dívida pública ou a abolição das gratificações que o Estado concedia. Perante estas medidas, o rei D. Carlos não hesitou em dar um exemplo de grande nobreza: abdicar de 20% dos seus rendimentos, a favor das finanças públicas.

Foi através de uma nota datada de 29 de Janeiro de 1892, e enviada a Dias Ferreira, na qual referia que “Querendo eu e toda a família real, ser os primeiros nos sacrifícios extraordinários, que as circumstancias do thesouro impõem á nação, previno-o que resolvemos ceder 20 por cento da nossa dotação, emquanto durar a terrível e dolorosa crise, que actualmente atravessâmos…”.

Este foi um exemplo dado por alguém que desempenhou o mais alto cargo da nação (rei) e que, como vimos, contrasta com a atitude de egocentrismo que a maior parte dos políticos portugueses possuem actualmente.

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