Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A estranha morte do padre Olímpio

Encontrão Ambiental

Ideias

2016-10-16 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

A semana que ontem terminou ficou marcada por três acontecimentos bem distintos e que envolveram os portugueses: o primeiro, marcado por um sentimento de orgulho, devido à unânime confirmação da nomeação de António Guterres para Secretário-Geral da ONU; o segundo, associado à apresentação do Orçamento de Estado para o próximo ano e, o terceiro, elevado pelo dramatismo que foram os acontecimentos que ocorreram na segunda-feira, em Aguiar da Beira.
Não querendo alongar-me em pormenor relativamente a qualquer uma destas três situações, faço apenas leve referência aos acontecimentos que ocorreram em Aguiar da Beira, no início da semana, e que chocaram, não só a população desta região, como todo o país.
Não sendo muito frequente ocorrerem episódios de dramatismo no nosso país, assistimos, pontualmente, a situações de anormalidade que a todos causa perplexidade. Foi o que aconteceu no início da semana que ontem terminou, com um assalto violento, seguido da morte de duas pessoas e outras que ficaram feridas com gravidade.
Baseado neste invulgar acontecimento, irei recordar um episódio que ocorreu na nossa região, passam agora 90 anos.
Eram, na altura, os últimos dias do mês de dezembro de 1926 quando, em Braga, surgiu a notícia que o padre Olímpio tinha desaparecido. Preocupados, as pessoas de Braga, Guimarães e Fafe tentavam, aos poucos, saber qual o paradeiro desse padre, tal era a admiração que este tinha nestas três localidades.
O mistério ficou parcialmente desfeito no dia 19 de dezembro de 1926, quando o padre Olímpio apareceu num quarto próximo do Convento de S. Domingos, em Guimarães. Foi encontrado pendurado por uma corda atada ao pescoço, pálido, com uns olhos semiabertos, a língua a mostrar-se por entre uma boca quase fechada e com um rosto sereno. Estava vestido com a tradicional batina!
O relato desta situação depressa ultrapassou as fronteiras de Guimarães, onde estava colocado na paróquia de S. Paio, chegou à sua freguesia de naturalidade, Travassós - Fafe, e também a Braga, onde era muito admirado e respeitado.
Afinal, quem era este mediático padre Olímpio, que apareceu morto em circunstâncias estranhas?
O padre Olímpio Rebelo nasceu em Travassós - Fafe, em 1902. Muito novo veio para Braga, onde frequentou o Seminário. Aqui ficou conhecido pela sua invulgar dinâmica: pertenceu à Juventude Católica, foi um dos fundadores da Juventude Católica de Travassós e era, à data da sua morte, diretor da Alcateia de Lobitos do Corpo Nacional de Escutas, em Guimarães.
Em 1924, com apenas 22 anos, foi ordenado sacerdote e enviado para Travassós, sua freguesia de naturalidade. Contudo, passado pouco tempo, a Arquidiocese de Braga resolveu enviá-lo para a freguesia de S. Paio, em Guimarães. Nessa freguesia, em poucos meses obteve o reconhecimento e a admiração de todos os paroquianos, quer pela sua juventude, quer pelo seu bom caráter e pela sua amabilidade. Era um padre moderno, para a época.
Na semana anterior ao Natal de 1926 o padre Olímpio resolveu fazer umas compras, para levar à sua família de Travassós, com quem iria passar a quadra natalícia. Para isso, deslocou-se a uma casa comercial, onde pretendia comprar aquilo que julgava mais necessários para o Natal dos seus familiares. Foi então que, desde essa final de tarde, deixou de ser visto, quer pelos seus paroquianos, quer pelos seus amigos.
Na ocasião, alguns vizinhos do padre Olímpio afirmaram tê-lo visto com um homem estranho, vestido com uma capa à alentejana. Foi então que se deslocaram a uma casa próxima da residência paroquial, em S. Paio, e, pelas 11 horas do dia 19 de dezembro, depararam-se com o triste espectáculo já descrito, ou seja, o padre Olímpio, já cadáver, pendurado por uma corda ao pescoço!
Perante este cenário, de imediato surgiu a hipótese de suicídio, que foi, no entanto, colocada de parte por todos os que conheciam o padre Olímpio. E a recusa da tese de suicídio baseava-se na alegria que o padre demonstrava, na solidariedade que revelava, na competência que detinha e no desejo de servir, sempre e cada vez mais e melhor, os seus semelhantes. Por isso, a tese de assassínio foi de imediato colocada como a mais provável. Contudo, esta era uma hipótese que admirava os seus amigos e familiares, uma vez que não se reconheciam inimigos ao padre Olímpio!
Como é natural nestes casos, as forças policiais e as autoridades judiciais tomaram conta deste estranho caso, que se prolongou no tempo, acabando, no entanto, por entrar numa fase de esquecimento, sem existirem ilações claras acerca do que realmente tinha acontecido ao jovem e mediático padre Olímpio.
Atualmente, num mundo mais evoluído a nível da investigação criminal, como é o nosso, desejamos que o presumível autor das mortes que ocorrerem em Aguiar da Beira, o tal “homem mau e perigoso”, seja capturado o mais breve possível e responda pelos atos que cometeu!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

27 Junho 2019

Braga e o Plaza

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.