Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

A Feira da Ladra

Portugal de pernas para o ar!

Ideias

2016-10-07 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Há dias fomos à Feira da Ladra, de um historial que se perde na lonjura dos tempos e mete cartas régias e tudo, cujo nome teria resultado de inicialmente funcionar na margem (lada) do Tejo, às Portas da Ribeira Velha, sendo como que uma continuação do mercado franco de Lisboa, aliás havendo quem situe as suas origens na época de D. Afonso Henriques, realizando-se então junto do Paço das Alcáçovas, no Castelo de S. Jorge, depois no chamado Campo de Santa Clara e acabando por se fixar, por decisão camarária, às Portas do Mar, perto do Panteão Nacional ( vide Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura). Mas mais do que a sua localização e fama, importará sobretudo dizer que aí se expunham para venda múltiplos objectos e outras utilidades já usadas, como farraparia, ferrro-velho, utensílios, bugigangas e peças várias, etc., lado a lado com coisas e artigos para o lar, objectos valiosos e até especiais instrumentos duma arte ou ofício, sendo certo que ainda hoje tal feira perdura, às terças e sábados, numa alargada exposição pública de velharias e outras utilidades para a vida. E ainda, refira-se ... muitas outras “coisas” e “peças” com histórias curiosas e particulares de vidas perdidas no tempo, “respirando” épocas, estilos e memórias de gentes sinalizadas e marcadas pelo passado, pelas sorte ou azar de um momento, fatalidades do destino, perdas de riqueza, quedas em desgraça e vivências em crise. Ontem, como um Hoje e um Amanhã!...
Aliás a Feira da Ladra, cujo nome, numa leitura e interpretação semântica primária, popular e natural, aconselhava a que fosse “empurrada” para o Terreiro do Paço, S. Bento, Belém, Largo das Caldas, do Rato e outros locais da política e dos partidos, continua nos dias de hoje a figurar e a manter-se como uma alargada exposição em tendas, mesas e estendais de muitas velharias e demais utilidades que tiveram a sua existência e importância noutros escaninhos e em muitos outros “armários”, “aconchegos “ e crises de vida, e que agora renascem como um importante memorial de “coisas” e “vivências” de passados. Que muitos ainda buscam na esperança de encontrar uma “pechincha” ou algo que, “respirando” passado, se lhes afigure com utilidade, signi- ficado ou valência a fazer vingar no futuro.
Como nós o fizemos, mirando e remexendo os artigos e velharias expostas nas bancas ou, em monte, nos estendais dispersos pelo chão, procurando afanosamente a peça “democracia”, ou algo que dela restasse ou com ela se relacionasse, aliás numa tarefa nada fácil, morosa e cansativa em que vingou a teimosia e valeu a pertinácia. E com resultados, diga-se, pois deparámos com uma de formato indefinido e inimaginável em louça vidrada, muito estilhaçada e quase em cacos, alguns presos por grampos, aliás uma peça para aí com uns quarenta e tal anos mas ainda muito bonita e atraente, embora muito maltratada e de utilidade e valor pouco ou nada fiáveis. Ainda que, aqui e ali, naqueles cacos de vidrado colorido se divisasse ligeiramente a existência e o perdurar de uns arabescos de várias cores, “palavras de ordem”, “slogans”, “ideias” e “promessas”, muitas, é certo, habilidosa e artificiosamente escritas num português atabalhoado, tal como nos lenços dos namorados, com coraçõeszinhos e flores. Cravos vermelhos, refira-se, alguns já com a cor desmaiada e outros murchos, perdidos e embrulhados em estúpidos “devaneios”, tolas “utopias” e ideias de manifesta “loucura”, como nos foi dado ver neste e naquele caco mais conservado. E quase ao lado, refira-se, descobrimos ainda uma outra peça, uma gamela ou alguidar mais recente feito de material reciclado e com um acentuado vermelho raiado, aliás uma má imitação e frustante cópia da primeira peça, e que até já se apresentava com bastantes riscos, sinais de rotura e com uns cordéis sujos, a desfiar e já gastos a servir de material colante, aglutinador e garantia dos interesses e ideias outrora vazados. Nada atractiva, por sinal, sendo certo que no meio de tanta cacaria, e num espólio de mais de 40 anos disperso num oleado do passeio, não eram poucas as pessoas que procuravam e mexiam noutras velharias, alheadas e desinteressadas da dita gamela ou alguidar, aliás de dúbias reciclagem, utilidade e valia.
E se fomos à Feira da Ladra foi porque há dias alguém tido por esperto, habilidoso e engenhoso como todos os que falam de política ou nela estão inseridos dizia que “a democracia tem custos”, isto quando perorava sobre as subvenções do Estado para os partidos, alguns já em falência, e que o povo paga e sustenta como aliás sustenta e vem pagando as isenções, as subvenções vitalícias de todos os “gerigonços” políticos, daqueles “desgraçados” e “sacrificados” senhores que passam os seu dias a “mamar” no Estado, a “lixar” o povo e a servir os seus interesses. E daí a nossa curiosidade em saber e avaliar tais custos, mas pelas peças que vimos na Feira da Ladra, e seus resquícios em espólio, interrogamo-nos seriamente se será de manter a “produção” e experimentar qualquer outra peça dita democrática, sendo certo que os estragos já constatados, a pouca ou nula fiabilidade e quase total inutilidade que tais artigos deixaram entrever o não aconselham, face ao risco de uma total falência do país.
É claro que fomos contrariados e até corremos certos riscos já que ficámos com a sensação estranha de que fomos sempre seguidos por uma figura sinistra, algo “pidesca”, que ( imagine-se lá porquê!...) se nos afigurava ligada ao Secretário de Estado das Finanças, sempre atento e presuroso em meter a mão nos nossos bolsos com a ajuda da AT, e por outro lado receámos que em qualquer esquina, de surpresa, ao passar perto do Panteão, nos surgisse o Senhor dos Afectos a tirar-nos uma selfie e a prodigalizar-nos um afago, um beijo, um abraço, para o que não temos idade nem disposição. Aliás para nos assustar, foram suficientes umas vozes de revolta e repúdio vindas do monumento, indignadas e críticas quanto a alguns “residentes”, mas que conseguimos serenar dizendo que “a democracia tem os seus custos” e que tudo se rege por interesses e confrarias. Riram-se e gargalharam...!
Ainda tentámos, em nova volta pela feira, apreciar outras e mais velharias lá expostas, sendo certo que um jogo de gamão, em bom estado, nos trouxe recor- dações e um jogo de xadrez, com figuras e peças em marfim, mexeu mesmo conosco. Antigamente, num passado não muito remoto, no xadrez do desenvolvimento e desenrolar da vida de uma Nação só havia e vingavam três classes, sendo que, no alongado dos tempos e com um aburguesamento de vidas, um culto da riqueza e o inesperado de um 25 de Abril, para além do Clero, Nobreza e Povo surgiu uma outra, a Política, que, se se foi destacando pelos vigor da novidade e frescura de ideias, criou logo novas regras e vivências, e alterou e mudou o xadrez da vida dos portugueses, mexendo sobretudo com o Povo. Aliás de jogo distinto, para mentes inteligentes, cultas, imersas nos silêncios do pensamento e concentração, que na verdade se afirmavam pelo seu porte, dignidade e seriedade, passou o xadrez, e desde então, a ser um jogo corriqueiro, engenhoso, de habilidades, artifícos e trucagem na classe Política, que se vem servindo e usando um tabuleiro de xadrez na governação, no poder e na feitura das leis, mexendo os peões a seu talante, movimentando ardilosamente as Torres e os Cavalos, habilidosamente contornando a Rainha e dando contínuos cheques-mate ao Rei, o Povo ( não é quem mais ordena e reina na democracia? ), que aliás só é útil para afagar vaidades, pagar impostos, sustentar loucuras e levá-los ao poder. Uma classe, a Política, cujo sangue “cheira” a dinheiro, honras, interesses, falcatruas, compadrios, subsídios, benesses, isenções de IMI, etc., com o Povo cada vez mais atrofiado, apertado e “lixado” no tabuleiro de xadrez da democracia. Quiçá naquele “alguidar” ou “gamela”, desinteressante e inútil, mas com custos, que pudemos ver na Feira da Ladra. De onde saímos desiludidos, apressados num regresso e desejosos de um bom duche, aliás como sempre, e por uma questão de segurança e higiene física e mental, diga-se.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

22 Novembro 2019

Os Direitos das Crianças

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.