Correio do Minho

Braga,

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A Festa das Cruzes e o regedor modelo

O amor nos tempos da cibernética

Ideias

2010-05-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A Festa das Cruzes, que por esta altura se realiza em Barcelos, tem sido marcada nas últimas décadas por uma paz social, que permite que esta se torne numa das primeiras grandes romarias portuguesas. No entanto, há quase 150 anos (exactamente há 148 anos) ocorreu, pela ocasião destas festas, grandes manifestações populares, que colocaram em causa a tranquilidade dos minhotos.

A razão desta sublevação não estava relacionada com a Festa das Cruzes, mas antes com um aumento de impostos.

Foi, portanto, no dia 3 de Maio de 1862, um sábado, que ocorreram em Barcelos graves tumultos. Um pouco por todo o concelho convergiram pessoas para o centro da cidade, cujo objectivo principal era protestar contra o aumento de impostos. O Administrador do Concelho, corajoso, colocou-se no meio da agitação e, com os meios à sua disposição, nomeadamente verbais, lá conseguiu explicar aos revoltosos que essas manifestações não faziam sentido, conseguindo desta forma alguma tranquilidade. Devido a esta intervenção do Administrador do Concelho, as forças militares, que estavam prontas para intervir, foram dispensadas.

No entanto, no domingo, uma nova sublevação mais grave voltou a ocorreu em Barcelos. Um enorme número de populares concentrou-se em várias freguesias, atraídos pelos toques a rebate dos sinos das igrejas. O sentido dos revoltosos apontava para uma concentração na freguesia de Gamil, partindo daí para o centro de Barcelos.

Apercebendo-se de mais esta agitação popular, o Administrador do Concelho e o Procurador Régio foram ao encontro destes revoltosos, tentando dessa forma acalmá-los mais uma vez. No entanto, e apesar dos seus esforços, estas “autoridades” não conseguiram impedir que estes avançassem para o centro barcelense.

Cauteloso, o Administrador de Concelho decidiu que seria útil acompanhar os revoltosos no seu percurso até Barcelos, tentando dessa forma evitar que ocorressem situações de maior gravidade. O problema é que, à medida que os revoltosos se deslocavam para o centro da cidade, o número de populares ia aumentando, aos quais se acrescentava ainda um grupo de cerca de cem homens, que se encontravam bem armados.

Às 15 horas, estes revoltosos entraram em Barcelos, dirigindo-se logo para a Repartição da Fazenda (Finanças), onde de imediato queimaram vários papéis que aí se encontraram arquivados. Desse edifício deslocaram-se para a Câmara Municipal, e como não conseguiram as chaves, não hesitaram em arrombar as enormes portas do edifício. Já dentro do edifício, destruíram uma enorme quantidade de documentos, deitando ao rio Cávado os pesos e medidas que se encontravam nas instalações municipais.

O redactor do jornal “Barcelense”, Cunha Osório, foi insultado na sua própria casa, uma vez que tinha escrito no seu jornal palavras contra este tipo de rebeliões.

Anormal foi a postura do regedor da freguesia de Sequiade, ao caminhar “d’espada desembainhada, à frente dos revoltosos da mesma freguezia!” (1)

Perante este caso do regedor de Sequiade, o jornal “O Commercio do Minho”, envolto em ironia, recomendou “á auctoridade as gentilezas d’este regedor modelo” (1). O jornal sugeria mesmo que a “sua punição será uma satisfação aos insultos commetidos, um desaggravo ás leis, e uma garantia á manutenção da ordem e do socego publico”.

Perante esta agitação popular, foi solicitada a Braga uma força de intervenção. O Governador Civil de Braga, Francisco de Campos de Azevedo Soares, enviou para Barcelos uma força composta por “40 baionetas”, enviando posteriormente mais 50. Esta força saiu da capital do Minho por volta das 16 horas, tendo no percurso apreendido várias armas aos populares, principalmente na freguesia de Santa Eugénia.

Ao aperceberem-se da aproximação destas forças militares, os revoltosos que se encontravam em Barcelos foram abandonando o local de revolta. De tal forma que, quando os militares chegaram à cidade, já quase toda a gente tinha ido embora. Quanto à ordem pública, esta apenas foi restabelecida ao cair da noite, por volta das 19 horas.

Esta revolta popular causou grande agitação em Barcelos, também devido ao dia em que ocorreu: 3 de Maio de 1862, dia da Festa das Cruzes.

(1) - Jornal “O Commercio do Minho”, de 6 de Maio de 1862

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