Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A grande catástrofe que afetou Braga

Sarrabulho e kizombada

Ideias

2016-02-28 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

O ano de 2016 está a ser marcado por um inverno rigoroso, onde a chuva, o frio e o vento têm feito parte, quase diariamente, do nosso quotidiano.
Não sabendo ainda como irá terminar este ano, no que concerne a estas condições meteorológicas adversas, nada daquilo que se tem visto este ano se assemelha, por ventura, ao mais assustador temporal que Braga já assistiu.

Tudo aconteceu há quase 237 anos, a 30 de junho de 1779, e atingiu as freguesias de Braga que se situam numa posição inferior à Serra de Carvalho d’Este, nomeadamente as freguesias de S. Mamede d’Este, S. Pedro d’Este, Crespos, Santa Lucrécia, Gualtar, Adaúfe, Nogueiró, Tenões e, ainda, S. Vítor.
A tarde desse dia tinha iniciado com um céu azul e muito calor, bem típico nesta época do ano. No entanto, a meio da tarde, o céu começou a ficar cinzento, cada vez mais escuro, surgindo repentinamente fortes trovoadas, que iluminaram toda esta região.

Na época, os trabalhos agrícolas eram realizados graças à mão-de-obra dos trabalhadores e, nesse dia, estavam vários envolvidos nas lides agrícolas. Destacavam-se muitas mulheres casadas, muitas crianças e jovens. Todos trabalhavam arduamente, ao som de cânticos associados ao S. João e ao S. Pedro, atenuando desta forma as canseiras que a vida de então lhes deparava!
Passavam poucos minutos das 16 horas quando, repentinamente, ocorreram assustadores trovões, seguindo-se uma chuva fortíssima, que em poucos minutos se transformou num caudal imenso, que tudo levou à sua frente. Os camponeses mal tiveram tempo de correr para se abrigar, tal era intensidade das chuvas.

Perante este cenário, e como era habitual, os sinos das igrejas destas freguesias tocaram imediatamente a rebate, alertando desta forma as populações para o perigo. No entanto, de nada serviram, pois o enorme caudal de água, que rapidamente se formou, arrastou instrumentos agrícolas, plantas, sementes, madeiras e até carros de bois. Este forte caudal do rio Este arrastou ainda muitos moinhos que então existiam e, inclusivamente, foram compelidos pelo rio vários animais, que se encontravam nos campos e nas cortes!

O medo e a miséria depressa se abateram sobre estas populações. Na altura, uma grande parte dos impostos que os camponeses pagavam ainda se centrava nas dádivas aos mosteiros desta localidade. Foi o que aconteceu com as populações das freguesias próximas da Serra de Carvalho d’Este, que tinham que pagar impostos ao então Convento de Nossa Senhora da Conceição, que se situava em Braga. No entanto, as dificuldades que enfrentaram, nos anos a seguir a esta terrível catástrofe, impediam-nas de cumprirem com estas obrigações.

Assim aconteceu com um casal de S. Mamede d’Este (Francisca Caetana d’Oliveira e António Francisco) que, a 4 de junho de 1783, tiveram que fazer uma escritura de redução da pensão que entregavam ao referido convento. Nesse documento, ficou declarado pelas religiosas do convento que “os caseiros acima mencionados eram obrigados a pagar ao dito seu convento 16 rasas de pão meado milho alvo e senteio impostas em terras que possuíam na dita freguesia de S. Mamede d’Este, entre as quaes era o campo chamado da Boucinha, sito conjunto ao monte nos limites da dita freguesia”. Contudo, nos anos seguintes, este casal não conseguiu cumprir as suas obrigações perante o convento, o que motivou uma alteração à respetiva escritura.

Para confirmar as dificuldades deste casal, as religiosas mandaram vistoriar os seus campos, por pessoas da sua confiança, tendo estas concluído que o referido campo “se encontrava coberto d’entulho e pedra que lhe introduziu a memoranda cheia do dia 30 de junho do anno de 1779, e que se não podia cultivar sem se fazer uma grande despeza para o seu desentulho”. Desta forma, ficou decidido que Francisca Caetana d’Oliveira e António Francisco iriam pagar apenas, anualmente “desde hoje por diante e para sempre em cada um anno dez medidas e meia de pão a saber quatro e meia de milhão e seis de milho alvo e senteio, e ainda meia rasa de milhão, que vem a ser cinco rasas de milho, e seis de milho e senteio”.

A alteração da escritura foi assinada, quer pelo casal, quer pela abadessa soror, Isabel Maria de S. Bento. Com esta alteração, ficou comprovada a grande catástrofe que se abateu sobre as freguesias limites da Serra de Carvalho d’Este, uns dias após o S. João de 1779, e que durante anos, gerações até, foi recordada permanentemente de pais para filhos.

Nos meses e anos seguintes foram vários os vestígios desta grande catástrofe. Restos de animais, de instrumentos agrícolas e até de moinhos iam surgindo em permanência nas margens do rio Este. Foi o que aconteceu uns anos mais tarde, quando foi construída a ponte de S. João, sobre o rio Este, em Braga, onde foi encontrado um eixo de um carro encravado na areia. Estava ali depositado, como consequência das cheias que ocorreram no dia 30 de junho de 1779.

Depois desta catástrofe natural, muitas outras ocorreram nesta região. No entanto, esta acabou por ficar na memória de muitas gerações como uma das mais destrutivas desta região!

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