Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A ilha da moda

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2018-08-28 às 06h00

Escritor

Autor: Cátia Lima

Princesa de facto não era, mas era esta a sua alcunha na terra de ninguém. Jane, a princesa, é uma designer de moda, quer dizer… Na verdade não o é, mas nesta terra tudo era possível e ela podia sê-lo como sempre quis, mesmo não o sendo.
Esta terra em questão é uma pequena ilha rodeada de água clara, e um verdadeiro oásis quando visto de cima. É uma ilha com pouca população e um mundo à parte, afastada do mundo que conhecemos, sem nada dos luxos que damos como garantidos. Jane foi lá parar numa daquelas modas de voluntariado, mas sem ser para estar na moda. Quer dizer, ela queria estar na moda mas não nesse sentido.
Quando lá chegou, num helicóptero, avistou quase metade da população, de tão pouca que era. E, claro, fizeram logo um grande alarido pela chegada de um estranho engenho que tão poucas vezes tinham avistado, e como se de uma Deusa se tratasse, receberam Jane fazendo-lhe várias vénias e mostrando um grande espanto pela sua cor de pele. Jane era uma jovem de tez clara, coisa que eles nunca tinham visto, além de possuir um grande sorriso, além de muito alegre e sem poderios, o que lhe fez ganhar grande simpatia por este povo e mais uns pontos a seu favor.

Jane avistou também meia dúzia de cabanas e o resto era simplesmente vegetação. Vegetação selvagem, algo que ela desconhecia, tal como os habitantes desconheciam a sua tez clara e o conhecimento do mundo, mas no entanto conheciam aquela selva como a palma das suas mãos. E o cheiro, à vida selvagem misturado de sons de pássaros e o som do silêncio com um trago fresco foi o que a encantou logo à partida. Mas, não existiam lojas! Não existia moda, não existia a ideologia de beleza. Era como se Jane tivesse voltado atrás no tempo, no entanto estava no mesmo ano que no seu país. Mas isso não a fez desistir, pois mal chegou começou a dialogar por gestos e a ter um bom entendimento principalmente com os mais jovens. E mesmo não sabendo o dialeto local, ela conseguia manter conversas abstratas feitas por gestos, expressões faciais ou desenhos feitos na areia.
Ao anoitecer, já ouvindo o barulho dos grilos, um senhor bastante velhinho e encurvado, levou-a, apontando com o dedo para uma cabana, querendo dizer ser uma oferenda da população. Mostrando-lhe assim, a sua nova casa durante um ano.

Era até bastante confortável no interior, mais do que parecia vista por fora. Tinha um colchão de palha, uma cadeira e uma espécie de fogão a lenha para cozinhar as suas refeições. Embora já se visse bastante mal, pois a luz elétrica ainda nem lá perto chegou e Jane duvidava até que soubessem o que isso era. Nesta terra-do-nunca havia um pequeno mercado com legumes, fruta e peixe acabado de pescar naqueles barquinhos feitos de madeira e instrumentos remotos. Jane aliviou-se em saber, pois era lá que ela iria buscar comida para as suas refeições.
Com o passar do tempo, Jane ia-se habituando a este ano de voluntariado onde lhes tentava ensinar inglês, mostrava fotografias e postais do resto do mundo, faziam artesanato a partir dos materiais que a terra lhes oferecia e té formou um grupo de dança, que era o que alegrava os seus dias. E foi assim que fez uma verdadeira amiga, chamada mana Titi quase da sua idade e que aprendia tudo rápido. Tinha sede de conhecimento e em pouco tempo até já falavam em inglês entre elas, o que fazia Jane sentir-se em casa.

Mas o sonho de Jane era realmente desenhar moda e foi nisto que ela pensou desde o primeiro dia. Desde o início desta aventura. Ela levara nas suas malas tecidos a metro e o resto dos materiais que precisaria, mas precisava de empregadas e de um sítio onde pudesse montar o seu atelier. Mas Jane não sabia qual seria a reação dos locais até que um dia decidiu contar à sua confidente mana Titi, e ela, sorrindo, disse-lhe que adoraria sentir-se bonita e usar roupas modernas como as que ela usava. Então, com a ajuda de todos foi contruída uma pequena divisão ao lado da sua cabana e então Jane passou os dias a desenhar peças de roupa para começarem o mais breve possível!

Mana Titi aprontou-se logo com o maior dos entusiasmos para a ajudar, embora não fizesse a mínima ideia do que seria moda pois a única coisa que ela tinha para vestir era um vestido de malha velho e esburacado que nem se sabia muito bem de onde tinha vindo.
Então mana Titi e Jane chamaram mais algumas raparigas do grupo de dança para lhes mostrar alguns desenhos, ainda esboços, explicando que aquilo seria o que juntas iriam criar. Dando-lhes expectativas e ambições.
Os desenhos estavam deslumbrantes e as raparigas estavam boquiabertas pois nunca tinham visto nada igual, e então, Jane deu-lhes algumas aulas de costura e após alguma (muita) paciência e alguns incidentes, as jovens aprenderam e puderam começar a trabalhar. Todas as roupas que fizessem seriam para vestir a população sem qualquer custo, e para mais tarde exportar algumas peças únicas deste povo feito ao gosto deles. Jane só queria introduzir a moda a este povo indígena e isso estava a tornar-se realidade.

Começaram a surgir peças de roupa e é claro que todos queriam experimentar e sentirem-se bonitos e nada lhes poderia tirar aquela felicidade do cheiro de civilização nem que por uns minutos… Até as sujarem todas.
Jane cumpriu o seu sonho de ser designer de moda, e já faltando pouco tempo para regressar a casa, Jane sucedeu o seu atelier a mana Titi para que ela e as outras raparigas começassem a fazer as suas próprias criações, inclusive começarem a ter visitas de vários repórteres na ilha da moda, como ficou apelidada esta pequena ilha pela princesa Jane, pois ela iria relatar toda esta sua aventura e dar a conhecer ao mundo no seu Blog sobre a viagem e sabia que a ilha ainda ia dar que falar.
Despediu-se de todos, em especial de mana Titi, dizendo-lhe que voltaria e traria mais tecidos!!!

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