Correio do Minho

Braga, terça-feira

A máscara caiu!

Dar banho às virgens

Ideias

2018-10-09 às 06h00

Jorge Cruz

“Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do carácter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido”
(Friedrich Nietzsche)


A recente polémica à volta do futuro das instalações da antiga fábrica Confiança trouxe para a agenda política uma série de factos, parte dos quais se tem mantido num quase anonimato por força de algumas cortinas de fumo lançadas pela poderosa máquina de comunicação do Município. Mas a controvérsia que o assunto gerou também serviu para provocar a queda da máscara que Ricardo Rio vinha apresentando, de político dialogante, rigoroso, cumpridor de promessas, enfim, de verdadeiro democrata.
Principiando por esta última asserção, creio que bastará chamar à colação algumas das afirmações por si proferidas, designadamente aquelas em que afasta qualquer hipótese de os bracarenses se poderem pronunciar sobre o futuro do imóvel.

“Não é por haver altas centenas de bracarenses empenhados nesta causa que essa questão é mais relevante no contexto municipal do que qualquer outra”, disse o presidente da Câmara do alto do seu pedestal, antes de avisar que "a quem vai caber essa decisão não é a um referendo popular, mas sim aos órgãos municipais, que têm legitimidade democrática para tal”.
Aos poucos, mas com uma frequência medonha, o edil bracarense vai mostrando que o carácter que molda a sua personalidade denota pouca correspondência com os valores da democracia. A altivez e a prepotência que por vezes é a sua imagem de marca, designadamente na relação com quem se lhe opõe, quer se trate de forças políticas, quer de organizações ou grupos de cidadãos, não são atitudes compagináveis com a boa prática das democracias, de resto como ele próprio teve oportunidade de denunciar tantas vezes quando estava na oposição.

“Olha para o que eu digo, não para o que eu faço” é um provérbio que tem perfeito cabimento na presente postura de Ricardo Rio. Quando na oposição, sempre defendeu os contributos benéficos dos novos movimentos da cidadania, ideia que continuou a acarinhar no início deste seu percurso no poder. E foi assim que, numa primeira etapa, manifestou uma certa abertura para discutir a cidade, chegando mesmo a criar alguns órgãos consultivos. Tratou-se, como infelizmente agora se confirma, de sol de pouca dura…
No processo da Confiança, o Conselho Consultivo para a Regeneração Urbana (CCRU) foi sumariamente ignorado, conforme o próprio Ricardo Rio reconheceu publicamente. Mas, bastante mais grave do que não solicitar parecer ao CCRU, foi a completa desvalorização deste órgão, que se viu humilhado e praticamente extinto, quando o presidente da Câmara asseverou que o resultado da sua audição “em pouco ou nada” iria interferir na tomada de posição do executivo!

Creio poder inferir-se das palavras de Ricardo Rio que nada nem ninguém faria mudar uma decisão que, pelos vistos, já estava tomada. “O processo seguiu a tramitação que seguiu, poderia aqui e além ter tido algumas opções diferentes, como convocar o Conselho para a Regeneração Urbana, ou perguntar, antes da decisão, ao presidente da Junta de Freguesia se estava bem ou mal com essa alienação”, concedeu o autarca. Mas não deixou de sublinhar que, “muito sinceramente, me parece que não iam mudar o destino final. Nesse aspecto, poderemos pagar esse preço, de não termos cumprido essas etapas, mas o resultado final, na verdade, seria o mesmo”, concluiu. Extraordinário!

Se ainda restasse qualquer dúvida quanto à atitude autoritária de Ricardo Rio, bastaria estar atento à intervenção do presidente da Junta de Freguesia de S. Victor para as dissipar. Em plena Assembleia Municipal, Ricardo Silva disse que “não cede a pressões que lhe queiram incutir”, antes de esclarecer que foi “chamado para o caderno de encargos da alienação e não para a possibilidade de a autarquia alienar ou não aquele imóvel”.
Este autarca, eleito como independente na lista da coligação de direita mas que se recusou a engrossar o movimento camaleónico que se formou no executivo municipal, ainda acrescentou que “gostaria de ser ouvido antes” até porque se afirma “defensor do diálogo, do debate e da comunicação”. Por essa razão, absolutamente legítima e cristalina, “gostaria de discutir as opções que são feitas para a minha freguesia nos termos próprios”.
É óbvio que qualquer pessoa política e intelectualmente séria não pode esconder o seu desencanto com a situação. Embora contristado, Ricardo Silva não atirou a toalha ao chão e, dando mostras de grande verticalidade, disse mais tarde à RUM que "o diálogo da CMB com as autarquias tem forçosamente que mudar, numa atitude muito mais próxima e num canal muito mais estreito", alertando que "este processo ainda não terminou". Ou seja, começam a ser audíveis as queixas e os alertas que, até agora mais ou menos em surdina, se sabia existirem em algumas antecâmaras do poder instalado.

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