Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Páscoa de portas fechadas

Encontrão Ambiental

Ideias

2018-04-01 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Minha aldeia na Páscoa.../Infância, mês de Abril!/Manhã primaveril! () Em pleno azul, erguida () Rebrilha a cruz de prata florescida... /A campainha toca: Aleluia! Aleluia! (Teixeira de Pascoaes).
Os versos do poeta aludem à nossa infância onde este dia era vivido seguindo tradições seculares e ao ritmo de um compasso de tempo mais pausado, comparado com a atualidade onde um ritmo célere acentua a brevidade da nossa passagem pelo mundo.
Hoje quase não temos tempo para estarmos com os familiares ou amigos, quase não temos tempo para contemplar aquilo que nos rodeia, quase não temos tempo para manter vivas as tradições, se não fosse a azáfama do comércio que a ela está associada.
Celebra-se hoje, como sabemos, a Páscoa, que é para os Cristãos a mais antiga e marcante festa religiosa. Representa a ressurreição de Jesus Cristo, que ocorreu três dias depois da sua crucificação. O respeito que os Cristãos desde cedo revelaram por esta época, fez com que, desde a Idade Média, os párocos visitassem a casa dos fiéis, transmitindo-lhes uma mensagem de paz e de esperança.
Sendo Portugal um país profundamente católico era na região do Minho que essa religiosidade se sentia com mais vivacidade e com um envolvimento pleno das suas gentes. Assim, basta recuarmos apenas uns anos, uma geração apenas, para somarmos com facilidade as casas que não abriam as suas portas à visita Pascal.
Há uns anos, uma geração apenas, os dias que antecediam a Páscoa, no Minho, eram marcadas por uma enorme azáfama das famílias. Nos dias precedentes ao domingo de Páscoa, os homens dedicavam-se a arranjar o exterior da casa, concertando o que havia sido degradado ao longo do ano, pintando as paredes das casas e dos muros, varrendo e lavando as bermas próximas da habitação. Por outro lado, no interior das casas, as portas e janelas abertas simbolizavam o corrupio das mulheres, que procediam a uma limpeza profunda das divisões da casa. Os quartos, a casa de banho, a cozinha ou a sala de jantar, nunca durante o ano eram tão limpos, tão profundamente limpos e, no final, as melhores colchas e panos de linho eram então exibidos. Não faltavam os arranjos de flores que eram colocados nos espaços comuns da casa para que o perfume que delas saísse traduzisse ainda mais o ambiente de festa!
Nas freguesias mais pequenas do Minho, onde as habitações eram em menor número, o pároco da freguesia percorria-as a todas, sendo convidado a saborear as iguarias que as famílias colocavam à disposição. Assim, nas casas mais pequenas e pobres, o pároco e sua comitiva paravam uns minutos, de forma apressada, seguindo depois para as outras habitações. Nas casas mais abastadas, o chefe de família vinha receber a comitiva Pascal à porta, convidando-os a entrar e aí permanecer por muito tempo, conversando, comendo e bebendo com fartura e alegria!
Em muitas casas do Minho, a abundância era também traduzida pelas girândolas, que causavam a admiração e até o respeito dos outros habitantes da freguesia. À entrada das casas, muitos competiam pelo melhor tapete de flores que apresentavam, que deveria ser pisado pela primeira vez pelo pároco e depois deixado ficar nos dias seguintes, até desaparecer naturalmente. As portas das casas abertas serviam também para que as pessoas mostrassem a roupa que acabavam de estrear!
Nos dias que antecediam a Páscoa, a cozinha era outro local de grande azáfama. As mulheres expunham, como nunca, os seus dotes culinários, para que todos pudessem admirar e saborear a indispensável carne de vitela, de porco de franco ou de coelho, e ainda o presunto, as rodelas de salpicão ou os ovos! Como sobremesas, não faltavam o pão-de-ló, os doces de romaria, os pudins e as indispensáveis amêndoas!
Durante semanas, os afilhados aguardavam ansiosamente a chegada dos seus padrinhos, para saberem qual o folar que lhes iria caber em sorte, no domingo de Páscoa.
Há uns anos, uma geração apenas, as gentes do Minho viviam de forma entusiasta o domingo de Páscoa. Era uma tradição marcada pelo convívio das famílias, dos vizinhos e dos amigos. Era o dia em que se cumpria plenamente o desejo de Jesus Cristo «saudai os que estão em casa».
O ritmo alucinante da vida dos nossos dias tem mudado também esta tradição tão portuguesa, tão minhota. Para muitos, a preocupação maior, nesta Páscoa, é a azáfama em torno do comércio e a admiração com a crescente presença de turistas que nos rodeiam, ou o desejo de uma escapadela para um outro destino e aproveitar uns dias de descanso. Se os familiares ficarem sozinhos em casa, isso já pouco importa!
Quem percorre hoje as freguesias da nossa região, depara-se com a maior parte das casas fechadas, como que ignorando o símbolo máximo da nossa religião e da nossa cultura. Hoje é um dia em que não se cumpre o desejo de Jesus Cristo, pois não se pode saudar aqueles que mantêm as portas fechadas!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

27 Junho 2019

Braga e o Plaza

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.