Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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A primavera e as aves (I)

A avestruz risonha que tocava Strauss

Escreve quem sabe

2015-03-28 às 06h00

Ana Cristina Costa Ana Cristina Costa

Aprimavera despoleta nas aves o relógio da reprodução. Esse mecanismo biológico que permite a perpetuação das espécies. Chega o momento de canalizar todos os propósitos para essa aventura que todos os anos se repete. Para algumas aves isso implica uma viagem prodigiosa que só termina após milhares de quilómetros percorridos. Lembro-me de em criança o início da primavera estar associado ao canto do cuco, pelo que nesta época do ano ansiava pelo seu canto.

Questionava-me por que razão não o ouvia noutras estações do ano e obviamente colocava esta questão aos adultos. Em casa contavam-me a história de que o cuco vinha de comboio e que o tio Manuel o ia sempre esperar e dar-lhe as boas vindas. Gostei de acreditar nessa fábula e questiono-me sobre a importância que teve na construção de uma identidade e pertença a um organismo complexo - a mãe Terra.

Sei agora que o cuco-comum, de nome científico Cuculus canorus, é uma ave migratória que percorre uma longa distância entre a África central e meridional e o continente europeu. O nome desta ave tem uma origem onomatopaica, está relacionado com o seu canto, e é semelhante em várias línguas. Em francês coucou, em inglês cuckoo, em alemão Kuckuck e em catalão cucut. Esta ave tem uma biologia muito peculiar, sendo uma das poucas espécies que não constrói o ninho.

A fêmea do cuco utiliza o ninho de outras aves, principalmente espécies insetívoras como rouxinóis, alvéolas e toutinegras para por os seus ovos, normalmente um, não se incumbindo de cuidar da sua prole. Nem sempre tem sucesso em usurpar os ninhos das outras aves e pensa-se que cerca de 30% dos ninhos parasitados são abandonados pelos seus donos.

A estratégia do cuco não termina aqui, os ovos de cuco normalmente eclodem mais cedo e a pequena ave começa a canalizar as suas energias para expulsar do ninho os outros ovos ou crias que entretanto nasceram. Desta forma consegue obter toda atenção dos pais adotivos. Uma estratégia de sobrevivência que põe a nu uma realidade que por vezes queremos esconder - a natureza pode ter tanto de belo como de cruel.

Qual a razão da biologia desta espécie ter evoluído nesse sentido?
Sei que na natureza as espécies tem tendência a ocupar os nichos ecológicos disponíveis, o que leva muitas vezes à sua evolução e ao desenvolvimento de novas espécies.
O estudo dos tentilhões das ilhas Galápagos por Charles Darwin conduziu ao desenvolvimento da teoria da evolução das espécies.

Darwin questionou-se como era possível num conjunto de ilhas, tão distantes do continente sul-americano, ocorrer tantas espécies de tentilhões (15 espécies) e com especificações alimentares tão variadas. O que terá acontecido nas ilhas foi uma adaptação progressiva da(s) espécie(s) de tentilhões que as colonizaram, com a ocupação dos nichos ecológicos disponíveis. Esta situação levou a modificações nessas espécies ancestrais conduzindo ao desenvolvimento de novas espécies.

Em Portugal temos o exemplo do Priolo, uma das espécies de aves mais raras da Europa e que apenas existe na ilha de São Miguel, Açores. Nesta ilha encontra-se apenas na zona leste (Serra da Tronqueira e Pico da Vara) local onde se refugiou da perseguição humana, na floresta de Laurissilva. Esta espécie tem uma aptidão por botões florais, incluindo as árvores de fruto plantadas pelo Homem, razão pela qual foi perseguida. Felizmente outros valores se impuseram e neste momento encetam-se esforços para a sua conservação. O priolo, de nome científico Pyrrhula murina, evoluiu a partir do dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula), ave com a qual apresenta muitas afinidades.

O dom-fafe é uma pequena ave muito vistosa que se encontra no continente europeu e que em Portugal podemos a observar na região norte. Embora seja uma espécie protegida, infelizmente é comum encontrá-la, e a outras espécies de aves selvagens, à venda na feira dos pássaros, junto ao mercado de Braga. Uma situação que nos deve deixar envergonhados e que as autoridades competentes devem pôr cobro.

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