Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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A primavera e as aves (II)

Uma Justiça que é tão cega

Escreve quem sabe

2015-04-11 às 06h00

Ana Cristina Costa Ana Cristina Costa

Várias espécies de aves fazem parte do nosso imaginário, como é o caso das cegonhas e das andorinhas, espécies que parecem merecer mais tolerância por parte do ser humano, visto não se importarem de partilhar o seu espaço com elas. As andorinhas e andorinhões são aves extraordinárias que percorrem grandes distâncias para voltarem ao seu local de nidificação.

As espécies que podemos observar no nosso país passam o inverno na África do Sul, portanto imaginem a odisseia destas pequenas aves e dos obstáculos que têm que ultrapassar para chegarem à Europa. Pensa-se que cerca de metade das andorinhas morrem durante a travessia do deserto do Sara em virtude das condições adversas que encontram, onde o alimento e a água escasseiam.

Em Portugal, nidificam cinco espécies: Andorinha-das-barreiras (Riparia riparia), Andorinha-dos-beirais (Delichon urbica), Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica), Andorinha-daurica (Hirundo daurica) e Andorinha-das-rochas (Ptyonoprogne rupestris). Todas estas espécies são estivais à exceção da andorinha das rochas que pode ser observada durante todo o ano. Na cidade de Braga e arredores pode-se observar a andorinha-dos-beirais, andorinha-das-chaminés e andorinha-das-rochas. O melhor local para observar estas espécies é ao longo do rio Este.

Uma espécie que também pode ser observada na cidade de Braga é o andorinhão-preto de nome científico Apus apus, uma espécie afim das andorinhas, razão pela qual por vezes é com estas confundida. O andorinhão-preto apresenta na verdade a plumagem castanha escura, com uma pequena mancha clara no queixo. As asas são compridas, em forma de foice, o que permite distingui-lo das andorinhas. Esta espécie constrói os seus ninhos em cavidades, geralmente em edifícios. Esta especificidade tem contribuído para a sua diminuição na cidade de Braga.

Os telhados das igrejas, os seus principais locais de nidificação, têm vindo a ser intervencionados de uma forma que não permite a sua nidificação. Possivelmente trata-se de uma questão que nunca foi equacionada quando se trata de restaurar os velhos edifícios da cidade. Ainda me lembro, há uns anos atrás, da azáfama dos bandos de andorinhões que faziam entoar os seus sons pela cidade, enquanto capturavam insetos em pleno voo e os transportavam para as suas crias, que os esperavam, ansiosamente, nos espaços entre as telhas. Espero que os próximos restauros tenham em atenção esta particularidade e que possamos continuar a ter a companha dos andorinhões na nossa cidade.

As cegonhas fazem parte também daquele grupo de aves que constam do imaginário de muitas crianças. Em Portugal ocorrem duas espécies, a cegonha-branca e a cegonha-preta. A primeira é uma espécie muito habituada à espécie humana, constrói os seus ninhos nos telhados das habitações, ou em árvores e coabita pacificamente connosco. É uma espécie que se encontra em expansão no Minho. Atualmente são vários os locais de nidificação desta espécie, com incidência para os vales dos rios Lima e Cávado.

Foi com agrado que há relativamente pouco tempo observei duas cegonhas numa velha chaminé industrial, junto à estação de comboios da cidade de Barcelos. A cegonha-preta é uma espécie bastante rara, sendo igualmente migradora. Prefere os vales dos rios mais encaixados e selvagens para passar a sua temporada de procriação. Não tolera a presença humana pelo que a perturbação do seu habitat pode ter como consequência o abandono do ninho.

Há relativamente pouco tempo foi encontrada uma morta no concelho de Esposende, crivada de chumbos. Estava de passagem proveniente do norte da Europa, da Polónia, creio, na sua migração para a África-do-Sul. Viu terminada a sua existência devido à insensatez e falta de sensibilidade.

As aves são de facto seres fantásticos que merecem todo o nosso respeito e admiração. O seu estudo e observação têm contribuído para a sua proteção. A observação de aves, Birdwatching em Inglês, é uma atividade em expansão. Em Portugal são cada vez mais as pessoas que captam este “chamamento da natureza” e que passam a dedicar-se à sua observação.

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