Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

A reflexão que a democracia impõe

Perdidos e achados

A reflexão que a democracia impõe

Ideias

2019-06-04 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

A barragem aos eurocépticos e às extremas-direitas europeias, impedindo a sua vitória, terá sido porventura uma das conclusões primordiais das eleições europeias de há uma semana. É certo que, em conjunto, os diversos grupos radicais se transformaram na terceira força política do Parlamento Europeu mas, mesmo assim, foi dado um importantíssimo passo para travar a sua ascensão. A questão, agora, passará pelo fortalecimento de um diálogo descomplexado que permita o desejado entendimento e mantenha o travão à ascensão do radicalismo e do populismo.

Nesse sentido, a eleição do próximo presidente da Comissão Europeia, que é, como se sabe, o cargo mais relevante no quadro europeu, será a próxima batalha a travar por quantos se opõem aos radicalismos e daí a importância do diálogo para a obtenção de um entendimento. Entendimento que, como se compreenderá, passa por complexas negociações envolvendo, naturalmente, a escolha para outros altos cargos nas instituições europeias.
Mas sobre o mais recente acto eleitoral convém destacar também, embora pela negativa, o alto índice de abstenção registado um pouco por toda a Europa (média a rondar os 50 por cento), com Portugal a atingir um número quase obsceno, muito próximo dos 70 por cento!

Pode-se afirmar que em Portugal, e com a ressalva da eleição de um deputado do PAN – partido que protagoniza uma rota de crescimento -, os resultados eleitorais não trouxeram grandes surpresas, mesmo no que concerne aos dados relativos à abstenção. Em todo o caso, convém precisar que os números são algo enganadores já que decorrem também do efeito do recenseamento automático, que incluiu quase um milhão de emigrantes.
Assim, numa eleição em que o número global de votantes efectivamente cresceu, o Partido Socialista foi o vencedor indiscutível enquanto a direita registou uma clara derrota, com PSD e CDS a obterem os seus piores resultados de sempre. Aliás, se esmiuçarmos os resultados constatamos que o PS cilindrou o PSD nos grandes centros urbanos, numas eleições que também ficaram marcadas pelo feito conseguido por António Costa de ter sido o primeiro Chefe de Governo a vencer as Europeias, aumentando a votação face às legislativas anteriores. Por outro lado, o resultado obtido pelo PS, conjugado com o reforço de votação conseguido pelo Bloco de Esquerda, consolida globalmente a posição dominante das forças da Esquerda, isto não obstante a queda registada pela CDU.

Transposto para o plano interno, quer isto significar uma maior responsabilidade para os socialistas, e para a esquerda que suporta o governo do PS, os quais têm o enorme desafio de prosseguir o difícil caminho encetado no início da actual legislatura de corresponder aos anseios e dar respostas aos problemas dos portugueses.
Confrontamo-nos, naturalmente, com o gravíssimo problema dos índices de abstencionismo, um problema que, não sendo embora exclusivo da democracia portuguesa, é preocupante e nessa medida terá que ser enfrentado com carácter prioritário.

Mais do que combater o fenómeno da abstenção, é imperioso combater as causas. E tal desiderato passa, em primeiro lugar, por conhecer os motivos que levam milhões de eleitores a não participarem num acto cívico e político da maior importância. A classe política e, de um modo geral, todos os intervenientes na actividade política, jornalistas incluídos, têm de tomar plena consciência de que existem motivos para a ausência de participação nas eleições.

É por ignorarem essas causas, por desvalorizarem essa posição política que a ausência de participação dos cidadãos muitas vezes significa, que os políticos assistem, frequentemente quase sem reagirem, ao crescimento dos índices de abstenção. E a situação ainda se agrava quando o fenómeno dá origem a movimentos que acabam por alimentar forças extremistas, como de resto tem vindo a suceder em alguns pontos da geografia europeia.
As eleições europeias deste ano confirmaram que em Portugal os movimentos populistas não encontram terreno fértil para a sua reprodução mas, como mais vale prevenir do que remediar, é aconselhável que nos consciencializemos de que a abstenção é sinónimo de descontentamento, por vezes uma consequência de sucessivas desconsiderações para com os cidadãos-eleitores e, nessa medida, pode ser um monstro adormecido.
As diferentes causas que conduzem quer à abstenção quer aos movimentos populistas têm que ser combatidas. E os generais de tal combate, aqueles que deverão posicionar-se no comando desta batalha, terão necessariamente que ser quantos ocupam posições políticas relevantes, afinal aqueles que mais contribuem para o incremento do fenómeno.

A classe política, em geral, e os distintos poderes, em particular, não podem continuar a manter a posição cómoda, por vezes quase autista, de não valorizar o fenómeno na sua verdadeira dimensão. Manifestar preocupação pelos números da abstenção na espuma dos resultados eleitorais é claramente insuficiente se nos dias que se seguem o ruído ensurdecedor desse movimento de renúncia dos eleitores é rapidamente esquecido. Sobram palavras mas faltam acções. Urge reflectir mas impõe-se a adopção de medidas. Ontem já era tarde.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.