Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A retroescavadora

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2018-08-09 às 06h00

Escritor

Autor: Manuel C. Correia

A casa de pedra lascada ficava num pedaço de terra argilosa, uma casa simples sem os adornos graníticos devidamente talhados. Cada pedra era por si só uma pequena obra de arte. Nas traseiras havia um terreiro de terra batida, e uma cerejeira encostada ao muro que limitava a pequena propriedade habitada por uma família de poucos recursos económicos, composta pelo casal e quatro filhos: dois rapazes e duas raparigas.
O dia começava bem cedo para todos os membros da família, no terreiro descascavam-se vergas para a cestaria. Uma pequena faca e muita mão-de-obra e o chão de terra batida ficava coberto de cascas de castanheiro e outros tipos de vergas. Era o sustento da família, de manhã até à noite sempre a descascar vergas. Isto de estar sempre a fazer o mesmo cansa. O segundo mais velho dos rapazes chamava-se Paulo, qual traquina qual quê, era cá um malandro! Sempre que podia arranjava uma desculpa para ir à casa de banho, ou então para beber água na cozinha, arranjava sempre uma maneira de ter umas pausas extras. Mas é bem verdade que não deixava de descascar as vergas que lhe tocavam.
Certo dia, bem perto da casa de pedra lascada uma máquina retroescavadora iniciou uma terraplanagem! O som era bem audível e Paulo começava a ficar com aquele bichinho da curiosidade. Fez de tudo para ir ver a máquina, mas o seu pai já o conhecia tão bem que não lhe deu rédea larga, sempre debaixo dos olhos dele. Aquele dia foi dos mais longos para o Paulo e também para os irmãos que não ficaram indiferentes ao som da retroescavadora. A noite chegou e o sono depressa tomou conta de todos os pequenos descascadores de vergas, excepto o traquina que olhava para o teto do seu quarto e imaginava aquela retroescavadora a arrastar a terra, o som potente do motor a diesel!
            A manhã chegou fresca e os meninos e meninas tomaram o pequeno-almoço antes de começarem o frenesim da descasca. Paulo foi o primeiro acabar o pequeno-almoço e o primeiro agarrar a faca e descascar vergas! Todos estranharam pois ele normalmente era sempre o ultimo acabar o pequeno-almoço e a começar a trabalhar. Nesse dia o Paulo estava com vontade de bater todos os recordes a descascar vergas, isso só na primeira meia hora, porque foi só meia hora até que fosse à casa de banho fazer as necessidades fisiológicas, o que normalmente era uma desculpa para fugir ao trabalho ou mesmo se esgueirar de casa. A dita casa de banho tinha uma janela pequena mas Paulo cabia na perfeição, e, foi isso o que ele fez. Enquanto todos descascavam vergas, Paulo estava na casa de banho, deveria estar, até que passados quinze minutos o seu pai António foi verificar e sem espanto viu que Paulo já se tinha esquivado. O pai voltou para junto dos outros filhos a murmurar.
- O raio do rapaz já fugiu outra vez, aposto que está a ver a máquina a tal retroescavadora que anda a preparar aquele terreno ali em cima para fazer casas. Por momentos todos pararam e olharam para o pai, e não se fez silêncio por muito tempo.
- Tu Luísa vai lá e diz lhe para vir de imediato antes que eu me chateie com ele.
- Sim eu vou lá e venho já. Falou a mais nova dos irmãos.
Os minutos foram passando e nada de Luísa nem de Paulo, e o terreiro cheio de cascas mas com falta de dois elementos, com os objectivos de produção a ficarem para trás. António olhou para os outros dois e voltou a mandar mais um elemento para trazer os dois desertores.
- Lídia vai tu buscar os teus irmãos e não fiques tu também lá, porque eu tenho muito trabalho e já estou a perder a paciência.
- Sim pai ou vou e não me demoro. Era a irmã mais velha que a Luísa.
Como não há duas sem três o terreiro cada vez ficava mais vazio de mão-de-obra e cascas mais um pouco mas longe de outros dias. O pai António que era já por natureza nervoso, já deitava fumo por todo o lado. Murmurava que se fartava, o homem já nem descascava varas em condições, dava pontapés nas cascas que estavam no chão, já parecia o Cristiano Ronaldo. O último dos filhos que ainda o acompanhava sentiu que era uma boa hora para fazer jus ao seu estatuto de filho mais velho, olhou para o seu pai e com uma verga das mais grossas e ainda por descascar.
- Pai não se preocupe que eu vou lá com esta verga e se não for a bem é a mal, vir é que eles têm que vir. Era o filho mais velho, o Narciso.
- Vai lá e não te demores, eu conto contigo para os trazeres.
Lá foi Narciso de verga bem agarrada à sua mão esquerda com vontade de os trazer nem que fosse à vergalhada. Caminhou em passo bem apressado, a retroescavadora estava a poucos metros da sua casa. Quando avistou os seus irmãos a deslizar nas rampas de terra como se fossem escorregas, a alegria dos seus irmãos estampadas nos seus rostos foi o clic para que a verga fosse lançada para o chão e depressa se juntou aos irmãos a escorregar na terra fresca. A roupa suja não importava, o que importava era sentir a sensação de deslizar e voltar para cima e voltar a deslizar. Estavam todos eufóricos, era bem melhor que descascar varas. Riam-se como perdidos que nem se lembraram que estavam a infringir a lei do seu pai. De repente um assobio familiar ouviu-se ecoar nos pequenos ouvidos, foi como se o tempo do recreio acabasse ao som de uma sirene. Foi uma correria até casa. Quando o homem do assobio chegou a casa já tinham descascado duas vergas cada um!

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.