Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Suécia, Portugal e os africanos

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Ideias

2012-03-19 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Agrave crise que afecta o nosso país e que atinge a maior parte dos portugueses é a consequência de um conjunto de hábitos e práticas que se têm mantido nos últimos anos, com particular incidência no pós 25 de Abril de 1974.
Esta situação merece uma comparação com outras realidades, concretamente com a Suécia e com uma grande parte dos países africanos.

Todos sabemos que a Suécia é um dos países mais prósperos e modernos do mundo. A nível geográfico a Suécia está, tal como Portugal, situada num canto da Europa, neste caso, no norte (Península da Escandinávia). Não chega a 10 % o solo cultivável, estando o país coberto de neve durante mais de meio ano (entre Outubro e Maio), com temperaturas que atingem cerca de -20°C.

A economia da Suécia é uma das mais prósperas do mundo. Têm empresas de nível mundial, como a ABB (Equipamentos eléctricos), a Sony Ericsson (celulares), a Electrolux (electrodomésticos), a Ericsson (telecomunicações), a Scania e a Volvo (automóveis) e a IKEA. São empresas com grande projecção na Suécia, mas também a nível mundial, algumas delas com forte implantação no nosso país.

A nível do Fórum Económico Mundial, a Suécia ocupa o terceiro lugar na lista de competitividade, tendo o Brasil como um dos seus principais parceiros económicos.
A nível social, a Educação e a Saúde são dos mais evoluídos e elogiados a nível mundial. No Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, a Suécia ocupa o sétimo lugar, sendo a sociedade sueca a mais igualitária do mundo.

A nível político, a Suécia é uma monarquia constitucional. Possui um Parlamento onde, tal como em Portugal, os seus membros são sujeitos a eleições livres e democráticas, mas sem o peso e o drama que os agentes políticos portugueses costumam implementar nas campanhas eleitorais. Os seus políticos não dependem da política para a sua sobrevivência económica, nem para se projectarem socialmente. Segundo a revista inglesa ‘The Economist’, a Suécia lidera o índice de democracia, a nível mundial.

A realidade do nosso país é bem diferente: vemos políticos com pouca formação académica, sem currículos profissionais de mérito, com pouca sustentabilidade financeira e com pouca, ou quase nula, projecção social. Características destas encontramos na maior parte dos líderes africanos.
Em Portugal temos políticos que se aproveitam da política para se afirmarem a nível nacional, para enriquecerem e ganharem currículo, um currículo meramente político e simbólico. Se lhes retirarmos as referências políticas, o currículo fica vazio. A maior parte dos políticos africanos possuem estas características.

Na Suécia, o primeiro-ministro vive num pequeno apartamento de tipologia “T1”, com uma sala multifunções, onde trabalha, cuida da sua própria roupa e das suas próprias refeições. Não tem empregados nem um batalhão de seguranças à porta.
Em Portugal, o primeiro-ministro tem à sua disposição uma ‘residência oficial’, repleta de seguranças, empregados da mais variada espécie, vários salões e gabinetes de trabalho, um quase incalculável número de assessores e um batalhão de seguranças e polícias a rodeá-lo. Na maior parte dos países africanos, a realidade é exactamente a mesma.

Na Suécia, o primeiro-ministro e os membros do Governo deslocam-se frequentemente a pé, usam transportes públicos e andam na rua descontraidamente, conversando com os seus concidadãos com grande naturalidade.

Em Portugal, o primeiro-ministro e os membros do Governo têm à sua disposição dezenas de automóveis de alta cilindrada, com vidros escuros para que não sejam vistos pelos seus submissos, com um batalhão de motoristas privados e vários assessores para a comunicação social. Quando são incomodados, chamam piegas ao seu próprio povo. Na maioria dos países africanos a realidade é praticamente igual.

Os políticos suecos deslocam-se para as reuniões de trabalho depois de uma grande preparação e estudo dos temas, transportando uma, até duas pastas, repletas de documentação. Em Portugal os políticos portugueses deslocam-se para as reuniões de trabalho com seguranças, uns óculos escuros e, agora que está na moda, um ipad. No final das reuniões, os suecos explicam tudo o que se passou, enquanto os portugueses saem atrás de seguranças, que afastam os jornalistas incómodos e inconvenientes. Na maior parte dos países africanos, os seus políticos adoptam uma postura idêntica aos portugueses.

Quando os políticos suecos são eleitos, uma das suas primeiras acções é inteirarem-se dos dossiers temáticos. Quando os portugueses são eleitos, uma das primeiras acções que realizam são várias viagens aos quatro cantos do mundo, para actualizarem os seus conhecimentos… turísticos.

Nas administrações públicas, os administradores suecos preocupam-se com o desenvolvimento das suas empresas e com a sustentabilidade e bem-estar dos seus trabalhadores. Em Portugal, qualquer administrador de uma pequena empresa municipal preocupa-se com o seu bem-estar e aparência: automóvel à sua disposição, pelo menos um motorista que o transporta a casa e ao trabalho (e às vezes até transporta a família), entram e saem do trabalho à hora que querem, dão instruções às secretárias para justificarem as suas ausências com “serviço no exterior” e falam alto para os seus funcionários.

Quando raramente estão nos seus gabinetes a trabalhar, limitam-se a assinar os documentos já preparados, não atendem ninguém e entram e saem de óculos escuros. Na maior parte dos países africanos, passa-se exactamente o mesmo.

Em Portugal, um cidadão que pretenda ocupar um lugar dirigente, quer numa empresa, quer numa instituição pública, fá-lo, na maior parte das vezes, por razões económicas (para ganhar mais em suplementos), por razões de poder (gostar de se evidenciar através do poder) e por vaidade pessoal (muitas vezes associada ao telemóvel, usado até à exaustão, uma vez que é grátis e oferecido pela empresa).

Numa altura em que alguns defendem uma viragem do nosso país para o continente africano, julgo não ser necessário porque, como vemos, as semelhanças entre os dirigentes portugueses e africanos já são bem evidentes.

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