Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A tragédia de Seramil (Amares)

Encontrão Ambiental

Ideias

2010-11-22 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Nos últimos anos a região do Minho tem vindo a diminuir a religiosidade das suas gentes, facto visível no número de fiéis que frequentam os templos católicos, no decréscimo dos casamentos católicos e também no aumento dos divórcios. Apesar disto, esta região continua marcada por uma profunda vocação religiosa das suas gentes.

Antes de vos referir um episódio que ocorreu na freguesia de Seramil, concelho de Amares, vou apresentar aqui alguns dados referentes à época em que esse episódio ocorreu: em finais do século XIX, Deus continuava a ser o elemento central na vida da maioria das pessoas. Era a Deus que as pessoas recorriam em ambientes difíceis das suas vidas. Aliás, as pessoas utilizavam, com frequência, expressões como: “Tudo se fará, se Deus quiser” ou “Paciência! Será o que Deus quiser”.

Ao longo dos séculos, a população minhota, permanentemente dizia que “Para as lombrigas das crianças não há melhor remédio do que um rosário de alhos”; “Livre-se alguém de passar por cima de uma criança que gatinhe, porque a tolhe e o inocente não crescerá”; “Criança que se veja ao espelho antes de começar a falar, gaga fica, certamente”; “Ninguém mate um gato na sua propriedade, porque mete a miséria em casa”.

Também os santos eram os primeiros agentes terapêuticos para os minhotos: - S. Brás cura a garganta; S. Vicente as bexigas; Santo Amaro os males das pernas e dos braços; Santo Ovídio os ouvidos; Santa Luzia os olhos. Quem rezar um responso a Santo António encontra o que perdeu!
Quando alguém adoece, as mulheres da casa de imediato faziam promessas e romarias a Nossa Senhora da Peneda (Arcos de Valdevez), a Nossa Senhora da Cabeça (Valença), a Nossa Senhora da Agonia (Via-na do Castelo), a Nossa Senhora do Alívio (Soutelo), Nossa Senhora do Bom Despacho (Cervães), a S. Torcato (Guimarães) ou a Nossa Senhora do Sameiro (Braga).

Mas o episódio que vos quero apresentar aqui hoje ocorreu, como disse, na freguesia de Seramil, concelho de Amares, há 120 anos (Setembro de 1890).
Por todo o Minho, as mulheres não hesitavam em deixar os filhos, deixar a família e deixar as suas habitações para se dirigirem para a Igreja para ouvirem o padre e as suas preces. Foi o que aconteceu, em meados de Setembro de 1890, na freguesia de Seramil.
José Pinto e a sua esposa viviam no lugar de Corujeira, da referida freguesia. Com eles viviam também os seus três filhos, de 7, 5 e 3 anos.

No domingo, este casal resolveu cumprir a sua devoção religiosa, deixando os seus três filhos em casa sozinhos. No entanto, antes de irem à missa, a mulher de José Pinto resolveu guardar os fósforos. Contudo, a forma como os guardou é que não foi a mais cuidadosa, ou seja, resolveu atirar os fósforos para dentro de uma caixa de madeira, dirigindo-se de imediato para a igreja.

O impensável aconteceu: com o impacto da queda, os fósforos acabaram por se acender, provocando uma lenta fogueira. Aos poucos, a força das chamas aumentou de forma assustadora, provocando um incêndio no interior da habitação. Como os três filhos se encontravam so-zinhos no interior da casa, a tragédia acabou por ocorrer: a casa incendiou-se, provocando a morte das três crianças.

Quando regressaram da igreja, José Pinto e a sua mulher depararam-se com um verdadeiro inferno: as chamas dominavam por completo a habitação, e ninguém foi a tempo para salvar as crianças.
Quando, após um feroz combate às chamas, puderam finalmente entrar em casa, o cenário era assustador, estando as crianças todas carbonizadas e, imagine-se, o filho de 7 anos com o irmão de 3 anos ao colo!

Todos estarão a pensar que este episódio, que ocorreu há 120 anos, já não se repete nos dias de hoje. Contudo, em todos os Invernos, são frequentes as notícias de pessoas que morrem carbonizadas, precisamente pela utilização menos cuidada dos aquecimentos, principalmente as lareiras. Por isso, alertas como este nunca devem ser menosprezados.

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