Correio do Minho

Braga,

A verdadeira crise já se instalou

Boas ações

Escreve quem sabe

2019-03-15 às 06h00

Carlos Alberto Cardoso

Durante esta semana muito se escreveu sobre a falta de valores dos novos programas de entretenimento das televisões generalistas portuguesas. As preocupações são legítimas, pois se os programas de entretenimento têm um papel importante na educação e formação das sociedades; por outro lado, também são um reflexo dessa própria sociedade. E isto tira-me o sono. Pois, provavelmente, também tenho responsabilidades nisto tudo.

Na evolução do homem e da mulher, o cérebro é o que mais evolui de geração para geração, reajustando-se na forma e no conteúdo, revelando-se nos comportamentos e atitudes, no saber estar e no saber ser. Hoje, ao olhar sobre o comportamento dos homens e das mulheres, e sobretudo daqueles que têm diretamente responsabilidades na decisão e na comunicação, tenho a clara perceção dessas mutações adaptativas. Olho estes decisores como quem vê um iceberg. O que está à vista é sempre menor do que o que está oculto. E é aqui que estão os valores, quando existem, somente revelados em comportamentos. Começo a acreditar que a evolução está a exterminar esses preciosos valores, pois se não se vêem, não são comunicados, logo não existem. Razão porque hoje vivemos uma profunda crise. Recentemente, fui questionado sobre o porquê de uma criança de 2 anos responder espontaneamente a questões como: “Já tens namorada?” ou “Já lhe deste um beijinho?”; o que não acontece quanto têm 6, 8 ou 20 anos. Pois claro, a criança ganhou, entre outros, o valor da vergonha.

São os valores revelados, como por exemplo, a vergonha, a culpa, a compaixão, a excelência, a solidariedade e muitos outros, que demonstram o nível de inteligência humana. Acredito que a sequência de valores exercidos é proporcional à revelação de competências. Quando um valor é ultrapassado outro fica “perdido”.
Ora, é por isso mesmo que me revolta a postura dos nossos diretores de programação, editores, mas também dos nossos políticos, opinadores, entre outros. Apetece-me gritar: salvem os valores, comuniquem-nos!. Exercitar um valor engrandece a ponta do iceberg que é vista. Só os comportamentos exercitam os valores. Este é o maior degelo do planeta. O que me parece é que ainda ninguém percebeu que esta crise jamais será resolvida à sombra da inteligência cognitiva. A Globalização trouxe uma nova dialética à construção de soluções que passa, obrigatoriamente, por quatro inteligências: cognitiva, emocional, social e espiritual. Em última análise, esta crise é profundamente espiritual. Aquela que me faz querer ser melhor, que me faz ir mais longe, que me faz lutar pela perfeição. E há dias onde os enaltecemos no comportamento dos outros.

Esta semana, por exemplo, a adjetivação ao nosso Cristiano Ronaldo revelava o lado mais profundo da sua existência carregada de valores.
Recentemente, num seminário na Universidade de Aveiro, perguntava-se qual era a maior ambição do trabalho de investigação? 90% respondeu que era querer mudar o mundo e contribuir para o conhecimento académico. Ora, quando confrontado com a questão, respondi que a minha única ambição é mudar o meu pequeno mundo, mudar-me a mim nas minhas perceções e comportamentos, na relação com os outros, partilhando com os que me rodeiam a minha nova realidade. Pareceu pouco ambicioso, mas todos concordaram ser atingível.

Cada vez acredito mais que, geneticamente, uns vêm mais preparados que outros. Mas a dimensão da inteligência abre novas oportunidades e novos desafios.
Na verdade, a cabeça é redonda para facilitar às ideias a mudança de direção de forma, e a transportarem valores para as ações e não só para encontrarem a boca de saída.

A solução para esta crise passa por todos, homens e mulheres, a lutarem por mudar o seu próprio mundo, a aumentar a ponta visível do seu iceberg com comportamentos de valor.
Eu não conheço humano algum que dê aquilo que não tem.
Este caminho que os media estão a percorrer não oferece valores que possam ser partilhados. Mas cada um de nós tem ainda a possibilidade de desligar a televisão e ler um livro ou, simplesmente, conversar com os que o rodeiam sobre como sonhar e evoluir.
Ninguém é perfeito, mas estamos vivos e como diz o ditado: “Ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar!”

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