Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

Acções concretas e solidariedade de facto

Como descomplicar uma devolução

Ideias

2013-05-09 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

«A Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem, em primeiro lugar, uma solidariedade de facto.»

A 9 de Maio de 1950, o então ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Robert Schuman, fundamentava nesta declaração, que se mantém extremamente actual, um plano preparado pelo seu colaborador Jean Monnet, para uma cooperação aprofundada envolvendo o eixo franco-alemão. Saídos de uma segunda guerra mundial devastadora, com mais de 55 milhões de mortos, os europeus ansiavam por um projecto duradouro de paz e que recuperasse a prosperidade económica de um continente que perdia a hegemonia mundial.

O sucesso da Comunidade Económica do Carvão e do Aço - envolvendo os ex-beligerantes França, Alemanha e Itália, a par do eixo Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) - foi de tal ordem que da cooperação ao nível das matérias-primas e indústrias ligadas à guerra se passou a uma abrangência económica cada vez mais alargada, com a criação da Comunidade Económica Europeia (CEE).

O mercado comum, a união aduaneira e a moeda única foram passos progressivos de uma integração que foi alargando fronteiras, até chegar aos 27 Estados-Membros (28, ainda este ano, com a adesão da Croácia). Dos iniciais cerca de 150 milhões de habitantes dos seis países fundadores, com uma área territorial de 1,2 milhões de m2, a comunidade europeia conta hoje mais de 500 milhões de habitantes, num território com 271 regiões e 4,215 milhões de m2.
Na, UE temos hoje o maior PIB mundial, as democracias mais fortes, a melhor protecção dos direitos humanos e direitos sociais e somos líderes na protecção do ambiente.
Nesta união da diversidade, o projecto europeu atingiu um sucesso tal que, hoje, as perspectivas de novas guerras na UE estão - erradamente - eliminadas da nossa mente. Na verdade, os nacionalismos e alguns demónios, como o racismo e a xenofobia, regressaram. A crise económica, financeira e social que atravessamos e o consequente aumento de desemprego originam um terreno fértil para a demagogia, o populismo e os extremismos.

A União Europeia reagiu a esta crise e criou mecanismos e instrumentos financeiros para resgatar Estados-Membros, está a avançar para a união bancária, aumentou a supervisão financeira, com o objectivo de prevenir e também de resolver problemas e dificuldades para os quais não tínhamos até agora nenhum meio ou instrumento.

A integração política e económica tem aumentado, mas as instituições não respondem às necessidades dos novos tempos e precisam de ter legitimidade democrática. É necessária uma maior integração política de forma a que se enfrente o desafio da globalização sem se colocar em risco o nosso modelo social. Na verdade, precisamos de uma UE mais social, com direitos sociais mínimos, com um orçamento maior, uma maior harmonização fiscal, uma maior solidariedade e partilha. No fundo, devemos colocar em comum as dificuldades e os benefícios do projecto europeu.

Para isso, a mudança de atitude das lideranças é também fundamental. Os líderes de cada Estado-Membro nacionalizam as vantagens e os ganhos decorrentes da UE, mas europeízam as dificuldades e os problemas. O que é bom é nacional, o que é mau é europeu!
Neste processo de construção europeia, Portugal, para além da Paz, tem tido benefícios económicos evidentes.

Nem sempre temos consciência, por exemplo, que a qualidade da água que bebemos, o tratamento das águas residuais e dos resíduos sólidos, os equipamentos de saúde e educação que temos e as vias de comunicação por onde passamos foram fortemente financiados pela UE. Quando falamos de falências e da degradação da agricultura e das pescas, apontamos sempre que a culpa é toda da União Europeia, sem que nos interroguemos sobre se teríamos alguma estratégia ou se sabíamos o que realmente queríamos para o desenvolvimento sustentado do país. E será que o sabemos agora, quando os recursos são mais escassos e as necessidades bem maiores?

Portugal recebeu de 2007 a 2013, mais de 30 mil milhões de euros, o que corresponde a mais de 11,7 milhões de euros por dia. É verdade que nem sempre utilizamos bem o dinheiro que recebemos e que algum dele favoreceu a economia especulativa. Mas o balanço foi positivo.
No contexto europeu, sempre limitámos a preocupação à quantidade de dinheiro que recebemos. A pergunta é egoísta: quanto é que nos vão dar? Nunca fizemos a pergunta solidária: o que é que vamos dar à UE? Esquecemo-nos que somos maiores do que pensamos. A nossa presença no mundo, a nossa diáspora, a nossa língua e as nossas ex-colónias são exemplos de áreas onde poderíamos afirmar-nos como mais-valia para a Europa. A solidariedade e a ambição, que devíamos ter, obrigam a colocar esta pergunta de forma estratégica.

Mais do que nunca precisamos de ter a coragem, a visão e a acção dos fundadores da UE. Sou cada vez mais federalista. Jean Monnet e Robert Shuman já o eram há 63 anos e defendiam aquilo de que tanto precisamos hoje: uma solidariedade de facto através de acções concretas.


GOSTO
O Minho conta com dois novos centros de informação Europe Direct que estão instalados no IPCA-Instituto Politécnico do Cávado e Ave, em Barcelos, e na APACRA-Associação Portuguesa dos Criadores de Bovinos de Raça Minhota, em Ponte de Lima. São dois exemplos de empreendedorismo que vão tornar a informação e os programas europeus mais próximos dos minhotos e têm a vantagem de estarem ligados a áreas estratégicas de grande importância para Portugal e para a nossa região, como são a educação, formação, investigação e a agricultura.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

15 Outubro 2019

Cumprir (por) Braga

15 Outubro 2019

Saldos com novas regras

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.