Correio do Minho

Braga, terça-feira

Adeusinho 2018

Estádio de sítio

Voz às Bibliotecas

2019-01-04 às 06h00

Fabíola Lopes

Poderia ser um não dia, um dia obstinado ou com vontade própria. Mas reitero que a vontade é minha, ainda que o dia tenha nascido primeiro para o mundo do que eu esta manhã.
Decorreu com normalidade até meio da tarde, sendo normalidade o tempo a pregar-me rasteiras e as coisas a fugirem-me dos dedos, quase tão depressa como os ponteiros do relógio a correrem com o tempo. Até que descubro que a lenha na garagem acabou, a noite cobriu já os telhados e a friagem já se começa a sentir no corpo. Socorreu-me o irmão de vida do costume.
- Ainda tens lenha? Quanto levas ao saco?
Fui com dois e vim com três, contas ajustam-se depois. Vai lá à vidinha, que ela já te está a zunir.

E só depois me lembrei, depois de ligar o ferro para passar o cesto de roupa que se vai acumulando entre excessos de trabalho e cedências ao lazer familiar, que o meu pai também tem lenha. A minha mãe também. E porque fui eu lá em vez de? Porque sei que ele não vai mais usar aquela lenha, não depois de instalar uma consumidora de comida para coelho a troco de uma chama cuspideira. Mas não só. 41 anos de vida atabalhoada e ainda escolho, num impulso, a ajuda dos amigos sob pena de levar rabecadas dos pais: então não sabes o que andas a fazer? Onde andas com a cabeça?
E ando. O ferro já deve estar quente e pouso a primeira toalha na tábua. Esquerda, direita e… enrodilhada. Aproximo a mão do ferro e nem sombras de quentura. Verifico fichas e cabos, rodo o assinalador da temperatura do mínimo ao máximo, a luz não acende, a água no depósito não borbulha, esfumaça ou esquenta. Nada.

Prendo o cabelo e vou à caixa de ferramentas. Uma chave de fendas cruzada tira os dois parafusos da base. Tento abrir e nada. Inspeciono o dito, rodo de um lado, do outro e lá está, o raio de um parafuso, não com cabeça em cruz, mas com cabeça em estrela, amaldiçoo o raio dos parafusos não terem todos a cabeça igual, ah, a simplicidade de uma chave de fendas e não uma sequela pior do que a do Sozinho em casa. Enfim, volto à caixa de ferramentas e tento as 3 chaves que por lá encontro. Nada. Vejo uma espécie de pirolitos alinhados por grossura e toca a experimentar. Claro que não dão, porque são brocas para perfurar com um berbequim. Encontro depois uma caixa com pequenos heróis a parecerem legos que se encaixam numa espécie de lápis. São pontas, penso, e após observação minuciosa uma parece encaixar numa forma de estrela. Tento e tento, mas não dá. É grande. Olho melhor e encontro uma pontiaguda, que me parece poder ser a heroína da noite e… voilá. Abro como se fosse a caixa de Pandora. Fico a olhar e não vejo nada de especial a não ser mais 3 parafusos para chegar a uma parte mais escondida, uma caixa ultrassecreta, ou como as Matrioscas da minha infância.

Ao abrir reparo que a base está cheia de uma camada de pó. De resto, tudo aparentemente ligado, normal. Uma mola salta-me para o olho. Ri-se de mim estatelada no chão. Apanho-a e reparo no tubo da água para o vapor que se rompeu. Solto a terminação e empurro o tubo para o local devido, encaixo o arame que o prende, limpo o que há a limpar.
Podia desde logo ter levado o dito ferro para reparar ao senhor Pavão, ali na Avenida Central. Mas eu queria mesmo deitar abaixo aquele cesto de roupa e queria mesmo que fosse hoje. E pagar um serviço destes só para limpar o pó e colocar um tubo no sítio… bem, rezo para que o mal seja todo esse. Não quero o senhor Pavão no desemprego, mas quero cumprir o meu calendário de tarefas.

Entretanto, lá vou fechando o ferro por partes, encaixo tudo e zelo para que nada sobre, coisa que me acontecia quando era garota e me aventurava a desmontar outros aparelhómetros. Ligo e fico à espera, o que parece uma eternidade, e lembro-me da espera de Penélope a fazer e desfazer a manta.
A luz acende-se e aquece. A água começa a fazer o seu assobio e é sinal de que está a aquecer. A única diferença é que a rodela agora indica o mínimo quando está no máximo e o máximo quando está no mínimo. Não vale a pena incomodar o senhor Pavão por isto.
Já eu fico incomodada com estes dias e, além de pedir saúde para mim, para os meus e para todos, como se tivesse 80 anos, peço que 2019 me traga menos dias destes.

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