Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Agência do Banco de Portugal: Luxo a mais para a nossa Braga

Encontrão Ambiental

Ideias

2014-10-12 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Existem em Braga alguns edifícios públicos que se destacam pela sua enorme qualidade arquitetónica. Não pretendo aqui enumerá-los, devido à extensão da sua lista, quero apenas recordar um dos mais belos edifícios públicos de toda esta região. Refiro-me ao edifício da agência de Braga do Banco de Portugal, situado em pleno centro da cidade.

Com 86 anos, este edifício do Banco de Portugal causou admiração a todos os que o visitam ou vêem, não só na época em que entrou em funcionamento, mas ao longo das décadas que se seguiram… até hoje. É também um edifício muito apreciado por turistas, que não hesitam em tirar inúmeras fotografias desta obra admirável.

O edifício da agência de Braga do Banco de Portugal foi inaugurado num sábado, 28 de Abril de 1928, e entrou em funcionamento na segunda-feira seguinte, dia 30 de Abril.
Curiosamente, este edifício foi inaugurado um dia após Oliveira Salazar ter reassumido a pasta de Ministro das Finanças de Portugal, depois de ter ocupado esta pasta durante apenas 13 dias (em Julho de 1926).

O edifício do Banco de Portugal foi considerado na época um dos mais belos edifícios que se tinham construído no nosso país, nesse século XX. Tudo foi pensado e executado ao pormenor, desde a localização central do edifício, à exposição solar, aos materiais usados, à preocupação extrema com a segurança, com a iluminação interior, com o aquecimento das diversas divisões do edifício e com a funcionalidade do mesmo.

Os relatos que nos chegam da época são verdadeiramente notáveis. Basta recordar aquilo que o jornal “Correio do Minho”, da sua edição de 29 de Abril de 1928, trazia a público.
Segundo este jornal, o átrio do edifício foi revestido com vários painéis de mármore de alta qualidade; as gigantescas portas foram construídas em ferro e metal, trabalhados manualmente por experientes ferreiros; as janelas tinham vitrais de grande atratividade e beleza, uma vez que os respectivos caixilhos foram construídos em ferro e pintados de preto.

No interior, foram colocadas portas em madeira de castanho e cristal, tal como os balcões que foram revestidos a madeira e guarnições em bronze.
Ainda no interior do edifício encontravam-se gigantescos pilares e colunas, que foram também elas revestidas a mármore de vistosa cor amarela, tendo os capitéis revestimento a bronze. Os enormes tectos tinham um centro liso, mas destacava-se na parte superior da cornija uma discreta ornamentação, que transmitia uma suave elegância.

A área do edifício onde se situava o Tesouro, a Tesouraria, a Contabilidade e os serviços de expediente, que estavam separados por uma atraente ornamentação de madeira de castanho e cristal, tinha uma grande luminosidade, reflexo dos vitrais franceses que lá foram colocados, revestidos por metal oxidado a preto.

Os gabinetes da direcção estavam situados junto à Contabilidade e estavam decorados com tapeçarias e mobiliário elaborado por empresas de Braga.
Todo o pavimento foi revestido a mármore branco e cinzento.

Os cofres constituíam outra grande atracção, uma vez que lá foram colocadas portas com 35 centímetros de espessura e com um complexo sistema de fechaduras. Outra novidade foi a colocação de robustos cofres, que serviam para alugar a clientes que aí quisessem guardar os seus valores.

De referir ainda que a maior parte dos materiais usados neste edifício eram da Braga ou desta região. Também as casas e empresas de Braga participaram activamente na execução deste projecto: todos os cristais colocados nesta agência foram fornecidos pela casa bracarense, pertencente a “José da Silva Esperança & Filho”; as tapeçarias e mobiliários foram colocados pelas oficinas pertencentes aos bracarenses “Sousa Braga&Filho” e a “Faustino&Barros, Filho”; a empresa “Soares Barbosa &Irmãos”, muito conhecida em Braga, executou trabalhos em madeira para este edifício.

De referir ainda que o autor desta agência do Banco de Portugal foi o arquitecto João de Moura Coutinho, tendo o engenheiro Abecassis Júnior tido um importante papel no desenvolvimento desta obra. Também António de Vilhena e José Sousa Cardoso, os directores da agência do Banco de Portugal, em Braga, exerceram um papel decisivo na concretização deste projecto.

A construção desta agência do Banco de Portugal, devido ao luxo que a rodeou, foi criticada por alguns sectores bracarenses, que consideravam um luxo a mais para a nossa região. Mas a sua utilidade justificava-se plenamente, devido aos valores económicos que o comércio e indústria tinham nesta região.

Salazar, quando tomou posse como Ministro das Finanças, a 27 de Abril de 1928 (um dia antes da inauguração deste edifício em Braga) proferiu a célebre frase: 'Sei muito bem o que quero e para onde vou'. Passados 86 anos, podemos dizer o mesmo das pessoas que idealizaram e concretizaram este edifício: sabiam o que queriam e para onde iam. E a prova ainda hoje se mantém: um edifício imponente, bem no centro de Braga, que causa admiração a todos os que por lá passam.

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