Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Agricultura vs Recolecção

Uma Justiça que é tão cega

Escreve quem sabe

2016-04-02 às 06h00

Ana Cristina Costa Ana Cristina Costa

Oinício da agricultura, há cerca de 10.000 anos, foi uma revolução para a nossa espécie: a população foi aumentando progressivamente, pois ficámos menos sujeitos a períodos de escassez e com menos necessidade de nos deslocarmos em busca de alimentos. Mas, embora a agricultura seja basilar na nossa civilização, a recoleção manteve um papel importante, variável consoante as regiões do planeta, dependendo da produtividade regional.
Durante milénios estes princípios basilares não mudaram muito mas, com a Revolução Industrial, e acelerando de forma exponencial no pós 2.ª guerra mundial, a alimentação, o seu modo de produção e a recoleção, sofreram uma profunda transformação a nível mundial.
Cerca de 50% da população mundial vive atualmente em cidades e na Europa essa percentagem é ainda maior, 75%! Mesmo quem ainda viva em zonas rurais adquiriu muitos hábitos urbanos, a recoleção está praticamente extinta, perderam-se muitas relações de vizinhança, a maioria das compras são feitas em grandes superfícies e alterámos radicalmente os nossos hábitos alimentares adotando a chamada dieta ocidental: excesso de carne e produtos de origem animal, de alimentos refinados e processados e carência de frutas, leguminosas e vegetais.
A sociedade industrial foi-nos assim afastando dos conhecimentos e hábitos ancestrais de recoleção de plantas para alimentação, que caracterizavam as dietas tradicionais. Hoje, ainda que rodeados de alimentos silvestres, estes não passam de ilustres desconhecidos para a maioria da população.
No Manual de Cocina Bellotera para la Era Post Petrolera, de César Lema Costas com apontamentos de Félix Rodrigo Mora, este pensador chama à atual sociedade dominante de agricoolizada, isto é, demasiado dependente dos alimentos fornecidos pela agricultura, pelo que a agricultura biológica e outras práticas agro-ecológicas são uma resposta parcial, uma vez que perpetua a agricoolização e a cerealização, causas principais das alterações em curso.
Especialmente em países como Portugal, com baixa percentagem de solos com boa ou muito boa aptidão agrícola, uma alimentação à base de cereais, em particular de trigo, cultura muito exigente, é insustentável por ser um regime desajustado das capacidades produtivas locais, regionais ou nacionais, condições do meio ambiente, clima e solo.
Perante os impactos negativos da agricultura e produtividade decrescente, a resposta é voltarmos a uma alimentação mais natural e não na generalização de novas práticas agronómicas, que são uma “fuga para a frente”.
No nosso clima e pelas excecionais qualidades nutricionais e abundância, a bolota foi dos alimentos que constituiu a base da alimentação das primeiras populações humanas que habitaram as regiões onde plantas do género Quercus dominavam o coberto vegetal natural, pelo que a adaptação do nosso organismo a esse alimento estará gravado no nosso código genético, mas eis-nos no século XXI quase ignorantes dos seus saberes e sabores.
A bolota é um mercado emergente e o seu potencial económico para a alimentação humana é da ordem dos 13 milhões de € anuais, isto numa avaliação muito conservadora, cerca do dobro do rendimento que atualmente se retira da bolota com a alimentação animal, maioritariamente o porco de montanheira.
Há o mito de que só a agricultura pode alimentar sociedades com alta densidade demográfica, mas com o abandono da dieta tradicional, destruiu-se o território, o solo, a biodiversidade, … com o avanço das monoculturas, a alimentação humana entrou em decadência pela debilidade nutricional das plantas cultivadas e, mais recentemente, acrescida da contaminação pelos mais variados químicos, quer os utilizados na agricultura (pesticidas de síntese, fertilizantes químicos) quer provenientes da poluição ambiental de diversas fontes. O aparente sucesso da agricultura dita moderna é deveras ilusório.
É necessária uma REVOLUÇÃO ALIMENTAR contra a hiper-expansão da agricultura e em prol da recuperação do bosque autóctone, portanto a favor da bolota!

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