Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Ainda sobre a cabeça e o coração

População da União Europeia sem Facebook? Parece mas...não

Ensino

2016-12-21 às 06h00

Marlene Ferraz

Quando ouvimos falar de progresso, raramente dedicamos tempo a considerar o polimento do comportamento humano, numa lógica mais emocional do que mecânica, com o interesse maior em evoluirmos como criaturas biológicas (e sociais), sem a superioridade dos mercados financeiros e da maquinaria industrial. Tendencialmente, progresso pode ser o relógio inteligente com aplicações e notificações e tantas outras funções ou um robô humanóide para exploração espacial.

Mesmo assim, os estudos continuam a insistir na principalidade das emoções no controlo comportamental (leia-se cada movimento e respiro), nas tomadas de decisão e até no sentido moral, com um papel evidente no exercício racional e na unicidade de cada um de nós. O dualismo cartesiano mente - corpo é, agora, um argumento mais que poético e o investigador António Damásio muito tem avisado sobre a importância do entendimento neurobiológico das emoções (que deveria ser exageradamente usado nas instituições de educação, a ser traduzido em novos princípios, métodos e leis capazes de reduzir o sofrimento e engrandecer o florescimento humano).

Perante continuados avanços técnicos e científicos, pergunto se temos, efetivamente, usado a informação sobre o poder da emoção (a ser vista como um programa de ações desencadeado pela mente mas vivido pelo corpo) a cada minuto de vida humana, com efeitos diretos nas manifestações comportamentais e mentais (como, a exemplo, um estado de ansiedade num exame académico ou o comportamento aditivo com uma substância psicoativa).

As alterações emocionais estendem-se pelos músculos do corpo, manifestam-se nas vísceras e libertam moléculas químicas - e o neurologista português aponta que é o quadro referencial das nossas emoções que selecionam as opções nas tomadas de uma decisão e que, quanto melhor compreendermos a carga de tantos determinantes quando estamos a fazer uso do verbo decidir, mais possível seria tomar decisões sensatas (e, portanto, mais eficientes para o próprio e para o bem comum).

O argumento “sou, acima de tudo, muito racional” já não tem fundamento explicativo na sociedade do século vinte e um e é claro que a cabeça (leia-se razão) e o coração (elemento figurativo da emoção) fazem parte da mesma raiz biológica do comportamento humano: a salvação da vida. É para esta meta que todos vivemos, de maneira mais ou menos consciente, entre telemóveis e infinitos acessórios com baterias e cabos e lembretes sonoros, mas continuamos a desconsiderar a urgência de, assim como o cálculo e a lógica, discutir as emoções, os sentimentos e o comportamento humano com as criaturas humanas do planeta. Somos muito conformados nas nossas ações e decisões pela matéria involuntária (ou inconsciente) que nos faz a cabeça tendenciosa, como avaliar o exercício de um árbitro de futebol quando somos interessa- dos por uma das equipas ou planear uma refeição com o corpo marcado por um apetite destravado.

Vamos lendo notícias de títulos curiosos em revistas e jornais mas raramente se dá o avivamento merecido nas Escolas e outros espaços de reflexão ao conhecimento do funcionamento humano. Como bichos sociais, precisamos de pensar como nos movimentamos dentro de nós e com os outros, pois haverá pontes que tombam por não sabermos reconhecer o orgulho, a raiva ou até a euforia.

Ouvi dizer que para resolvermos os grandes problemas da atualidade, leia-se o fluxo migratório ou as ocorrências tingidas pelo terrorismo, não precisamos de mais técnica ou ciência mas de saber tomar decisões criteriosas, com o entendimento emocional que tem faltado na construção do novo mundo que somos (entre pipocas de microondas e máquinas de lavar com sensores especiais). Ousaria dizer que conseguimos ir à Lua mas sem ter pensado (seriamente) sobre o que influenciou a nossa vontade de pisar o território lunar. Sabemos mais cuidar de bactérias numa cultura laboratorial do que das emoções dos nossos conformes - ainda me espanta quando, em consulta, declaram as bocas o grande medo de se sentirem sós ou a arduidade em falarem aos outros das “coisas de dentro”.

Andamos com relógios inteligentes no pulso mas ainda falamos muito pouco sobre a matéria do coração (mais do que explicadores de álgebra, probabilidades e estatística, precisa-se também de conversadores sobre o funcionamento natural dos homens).

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