Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Álvaro Cunhal e a fuga para a liberdade

Sarrabulho e kizombada

Ideias

2016-01-03 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Passam hoje exatamente 56 anos desde que Álvaro Cunhal praticou aquela que pode ser considerada como a mais mediática fuga que ocorreu numa prisão portuguesa.
Pelo regime repressivo que vigorava em Portugal, pela prisão de alta segurança onde se encontrava, pela descredibilização crescente do regime ditatorial e pelo protagonismo de Álvaro Cunhal, esta fuga abalou os alicerces bem sólidos do Estado Novo e abriu brechas no seu rigoroso mecanismo de controlo da sociedade, que culminou com a sua queda, 14 anos depois (1974).

Ao longo dos últimos 100 anos, foram vários os políticos que se destacaram em Portugal, mas foram, apenas, quatro os que mais mérito demonstraram e se destacaram pela sua ímpar qualidade e destreza política. Quatro nomes que marcaram a sua época, que marcaram várias gerações, e que perdurarão por décadas, séculos, nos registos mais destacados da nossa história. Refiro-me a Oliveira Salazar, a Mário Soares, a Francisco Sá Carneiro e a Álvaro Cunhal.
Um desses protagonistas, Álvaro Cunhal, teve um dos seus grandes momentos no dia 3 de janeiro de 1960, há exatamente 56 anos. Pelo brilhantismo da sua ação e pelo que representa na nossa história, merece hoje aqui ser recordado.

O regime que vigorava em Portugal, nesse ano de 1960, era o Estado Novo. Era um regime que dominava o país desde 1933 (Constituição), mas cujos contornos ditatoriais já vinham desde 1928, quando Salazar tinha assumido a pasta de Ministro das Finanças, até 1932, seguindo-se um ano como presidente do Ministério (1932 e 1933) e depois como presidente do Conselho de Ministros, entre 1933 e 1968.
Durante todo este período, Oliveira Salazar rodeou-se de um sistema de base repressiva, que o ajudou a manter-se no governo durante todo este tempo. Na altura, todos os que se opusessem aos seus ideais e às suas decisões políticas sofreriam, e de forma brutal. Uma dessas vítimas foi Álvaro Cunhal.

Forte opositor ao Estado Novo, Álvaro Cunhal acabou preso durante 15 anos, em 1937, em 1940, e entre 1949-1960. Durante oito anos ficou em total isolamento tendo, nessa ocasião, aproveitado para desenvolver as suas brilhantes qualidades de artista e escritor.
A chamada Fuga de Peniche faz hoje 56 anos e foi a consequência da tortura a que Álvaro Cunhal foi sujeito pela oposição que desencadeou ao regime salazarista - tendo ocorrido nessa prisão de alta-segurança. Em conjunto com outros colegas, também ligados ao Partido Comunista Português, deu-se a célebre fuga da prisão, que causou espanto em todo o país, pese o facto de o regime de então limitar muito as informações dadas aos portugueses e censurar, eficazmente, a comunicação social.

Nesta evasão estiveram envolvidos os “dez de Peniche”, compostos por Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho.
A fuga assombrou os meios políticos e policiais portugueses, tal era a segurança que envolvia essa prisão. Ao final do dia de 3 de janeiro, um automóvel estacionou mesmo em frente à prisão e, de seguida, foi neutralizado o guarda de serviço, através de uma anestesia.

Com a ajuda de um sentinela, Álvaro Cunhal e os seus companheiros percorreram várias divisões da prisão, sem serem notados pelos diferentes guardas. Consequentemente, desceram a muralha do forte através de uns lençóis atados uns aos outros até alcançarem o exterior da prisão. Quando chegaram a Peniche, encontravam-se já vários automóveis, que os levaram para diferentes locais.

Deste modo, estava consumada aquela que acabaria por se tornar numa das mais espetaculares fugas da prisão que ocorreu no nosso país e até mesmo a nível internacional, tal foi o simbolismo que a mesma causou com a afronta ao regime sólido de Oliveira Salazar.

Recorde-se que a prisão Fortaleza de Peniche foi uma prisão de alta segurança que funcionou durante o Estado Novo. Por ela passaram 2487 presos, que sofreram amarguras e torturas, muitas delas de difícil relato! A violência desta prisão (que fazia lembrar o célebre “Rochedo”, a prisão de alta segurança norte americana) era do conhecimento da população, que não hesitava em ajudar alguns familiares desses presos, que lá se deslocavam, concedendo-lhes ajuda alimentar e alojamento, muitas vezes gratuito, tal era a miséria e o sofrimento que então se vivia.

No início de 2016, nada melhor do que recordar um dos acontecimentos marcantes da nossa história recente, para que todos possamos aprender com o passado e contribuirmos para uma sociedade mais justa e livre de opressões, sejam elas políticas, sejam sociais ou sejam as atuais económicas e financeiras.

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