Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Amor, essa urgência de segunda ordem

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Ensino

2019-02-13 às 06h00

Marlene Ferraz

Sempre ouvimos que o amor é matéria universal e atemporal: já nas (excessivas) tragédias gregas e ainda nas (apressadas) vidas contemporâneas. Acredito que nenhuma criatura humana tenha vivido sem dizer (pelo menos uma única vez) a palavra ou (desejar) experimentar o seu sentido. É comum ser causa inspiradora nos exercícios artísticos e tema de conversa nos cafés, também motivo de crimes catalogados como passionais e argumento principal nos diálogos em terapia de casal.

Sabe-se de biografias de amor que se prolongam por meio século, mesmo com as maiores adversidades da história (e do homem), e cruzamentos casuais que se eternizam naqueles cinco minutos. O amor está sempre. E é procurado sempre. Mas, apesar de todos nós elevarmos o conceito, parece que, na verdade, ninguém dedica tempo (leia-se cuidados) suficiente para uma sociedade eficiente na vivência do amor.
Ainda me espanta que estejamos a polir uma humanidade que se espera empática, tolerante e sustentável sem a menor atenção à ciência dos afetos nos lugares de ensino e até da saúde. É raro ouvir-se de disciplinas sobre as emoções e os sentimen- tos, também é raro saber-se de cuidados de emergência para corações destroçados ou maquinaria cerebral que ainda se desordena a governar a raiva, o medo ou o desapontamento.

O amor é urgente (dizemos tanto) mas é continuamente tratado como matéria de segunda ordem (leia-se ordinária, dispensável, pouco favorável ao lucro e ao avanço artificial – mentira: já o nosso António Damásio, neurocientista aplicado a estas perguntas biológicas, nos tem avisado que não há razão sem emoção: somos, inevitavelmente, bichos emocionais e, portanto, emocionados).
Se mais soubermos regular estes estados flutuantes e compor subjetivamente experiências sentimentais mais ajustadas (sem reatividades desprevenidas de reflexão que muito podem levar à violência evitável), estaremos a fazer um melhor mundo e a agir não só para termos profissionais competentes em geometria analítica e astrofísica mas, acima de tudo, em (será que podemos ousar o termo científico?) amor. Amor pelo outro. Amor pelo ofício. Amor pelo progresso. Sim, o amor é universal. E atemporal. Mas deve ser matéria de primeira.

Já é hora de percebermos que não basta saber-se resolver dilemas matemáticos nem falar com a maior precisão sobre buracos negros e força gravitacional. Mesmo um físico teórico move-se neste continuado de variações emocionais e estados sentimentais e, muito provavelmente, estas flutuações terão efeito nas fórmulas e suposições que, por engano, se classificam como puramente racionais. Sabe-se de conclusões investigativas sobre o que mais gostariam de mudar na sua biografia homens já muito chegados ao acontecimento da morte: tendencialmente, o lamento é não terem dedicado mais tempo aos elos de amor e amizade.

Começa a ser muito evidente que precisamos de aprontar a competência para amar: estudos sobre violência no namoro estimam que entre vinte a trinta por cento dos adolescentes tenham já vivido situações de violência, número elevado a cinquenta se considerarmos os jovens adultos.
Mas mais preocupante ainda é termos percebido que uma percentagem considerável de jovens legitima comportamentos violentos num relacionamento íntimo, num desamor que muito consente e desfaz.

Deveríamos impor como prioridade educar para os afetos: criar moradores do planeta que saibam amar com todos os desafios e respiros que o verbo implica. Assim, comecemos, finalmente, a ocupar o território mental com diálogos sobre autorregulação emocional e outras competências que levariam a muitas vantagens individuais e coletivas – a literacia emocional (conhecermo-nos a nós mesmos, para um governo mais consertado) tem efeitos positivos tanto no desempenho académico e profissional como na atitude empática com o outro.
Apenas uma nota final: bendita desobediência dos artistas que nunca desistiram de contemplar e até dissecar o amor (mesmo tendo sido abusivamente depreciado pela pura ciência) - até o nosso neurocientista tem declarado - o que mais falta ao mundo (para que sejamos mais tolerantes e menos violentos) é, indiscutivelmente, mais poesia e romances.

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