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Escreve quem sabe

2018-12-18 às 06h00

Analisa Candeias

O ano de 2018 tem sido profícuo em agitação social. E, aqui, chamo agitação social às inúmeras greves e manifestações que decorreram nos últimos tempos, em especial no que diz respeito aos serviços da função pública.
Como enfermeira, embora numa carreira diferente relativa ao ensino, não posso deixar de manifestar a minha solidariedade para com os colegas que se aventuraram nessas lides que, muitas vezes, vão dando a cara por causas em que ainda acreditam – e pelas quais avançam um pouco mais naquilo que é a solidificação dos seus direitos.
Considero que os colegas têm cumprido um dever – o da cidadania - muitas vezes esquecido por quem se encontra mais acomodado.
Aliás, os colegas têm sido um exemplo de resiliência e força, independentemente das adjetivações de crueldade que lhe têm sido realizadas - e que deviam ser ponderadas antes de serem verbalizadas. As palavras têm muito poder, em especial na gíria política.
E não, os enfermeiros não vão esquecendo o vai sendo dito.

1.Não poderia deixar fechar o 2018 sem falar da Ordem dos Enfermeiros, que faz vinte anos.
Em 1998, sob a responsabilidade da Enfermeira Mariana Diniz de Sousa, ocorreram eleições para os Órgãos da Ordem, dando-se continuidade às ações dos diferentes enfermeiros que, à semelhança do que vai acontecendo nos dias de hoje, foram sempre um exemplo de resiliência e força.
É graças a eles, homens e mulheres de visão (e missão), que os caminhos se foram abrindo. Ou trilhando. Trilhando talvez seja a palavras mais adequada, visto que os percursos foram sendo acidentados ao longo dos anos, numa espécie de caminhada, por vezes, agreste.
Porém, nos dias hodiernos, vai sendo de alguma forma cansativo percorrer determinados trilhos, que se têm tornado demasiado repetitivos, e nos obrigam muitas vezes a voltar atrás, a repetir passos e a encontrar alternativas.
Não há problema. Se há coisa que os enfermeiros apresentam é criatividade suficiente para galgar degraus. E disposição também.

2.Se fiz menção à nossa Ordem, faço igualmente referência às novas gerações que vou ajudando a formar, e que a terão de integrar caso queiram exercer Enfermagem em Portugal. Neste ponto vou-me tornando repetitiva, pois já há alguns anos que digo que o país tem formado profissionais de excelência para encher os mercados europeus. Não considero que seja errado o correr o mundo (também o fiz), conhecer novas realidades de trabalho e novas experiências – as vantagens são esmagadoras perante a bagagem que adquirimos. Mas considero que é desvantajoso para a conta pública a aposta na formação de qualidade das novas gerações e depois não a aproveitar. Há falta de enfermeiros nos serviços de saúde em Portugal. Isso é um facto incontornável, com base estatística. A promoção da saúde, a prevenção da doença e a qualidade dos cuidados de saúde seriam maximizadas se existissem mais enfermeiros nos serviços de saúde nacionais, em especial em ação na comunidade. Cruel é deixar os serviços assim, em termos de “mais ou menos” – e mais para menos do que para mais.

3.Por último, não posso terminar o meu contributo de 2018 sem aludir ao acidente que vitimou uma enfermeira (Daniela Silva) no passado sábado, dia 15 de dezembro.
Os profissionais que trabalham no INEM têm uma preparação técnica fora de série, habitualmente com níveis elevados de motivação e satisfação com o que fazem. Admiro-os bastante, tendo em conta os cenários que vão encontrando para desempenhar as suas funções; cenários muitas vezes repletos de burocracia e protocolos, de limitações financeiras e pressão no cumprimento de tempos.
A fatalidade de sábado que vitimou quatro pessoas move as emoções de todos e move os profissionais de saúde para a união e solidariedade. Como tal, será mais uma alavanca para lutarmos pela qualidade da saúde que disponibilizamos, e na qual acreditamos. Daniela, um bem-haja.

São estes os três pontos com os quais gostaria de terminar este ano. Conceito do passado, visão do futuro, aprendizagem no presente.
O tempo interligado para que seja possível construir uma melhor saúde, ajudando a população a reconhecer a agitação dos enfermeiros como uma medida para construir melhores (e maiores) cuidados. Os alvoroços sociais existem para que haja um melhor futuro – afinal, não é o que todos queremos?

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