Correio do Minho

Braga,

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Arrivistas e(ou) mafiosos

Muita desconfiança é patológica

Ideias

2013-03-08 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

“Sem o fim das jotas «não há democracia»”, titulava o JN de 26.1.13 pegando nas palavras de Boaventura Sousa Santos que em Coimbra teria dito “ter a «impressão» de que, «enquanto não acabarem as ‘jotas’, não há democracia em Portugal»”.

Falando na «degradação da classe política», classificava as ‘jotas’como“«uma forma de socializar políticos desde uma idade muito tenra, em que têm muito pouca experiência de vida, de os canalizar na lógica partidária e do movimento interno dos partidos e de os fazer promover dentro desse movimento»”, havendo o risco de se “«chegar a uma situação em que chegam às cúpulas dos partidos pessoas que não conhecem a realidade», e cujo mérito «é muito limitado»”.

Tal como o Boaventura, que disse “não estar a pensar em ninguém em particular”, comungamos de igual opinião sendo incontornável que desde há muito temos vindo também criticando a actual classe política, que aliás tem vindo a “estragar” e a minar a própria democracia. Na realidade, como é notório, tudo se vem conjugando, manipulando e “cozinhando”nas juventudes partidárias, desde há muito transformadas em “plataformas” e “pontes” para toda uma projecção sócio-económica-política, “funcionando” como “escolas” em ordem a um emprego, lugar ou tacho nas áreas da governamentação pública, ou mesmo como “universidades” direccionadas ao poder e a uma intervenção e lançamento na vida social.

Muito mais valiosas e importantes para o futuro e a vida , sublinhe-se, do que as universidades do próprio país, hoje a sofrer uma generalizada degradação em valência, significado e relevo social, muito por causa de um “desmiolado” facilitismo, de uma patética “democratização” e de todo um “esvaziamento” de valores desde o saber aos sentimentos de responsabilidade, amor próprio, consciência profissional e disciplina. A evolar desde o secundário e “coroado” com o famoso processo de Bolonha.

E se são muitos os arrivistas que vêm nidificando em tais “escolas de política”, não são poucos os que se deixam embalar pela mafia das “cunhas”, “promessas” e “protecções”e se envolvem nesses processos mafiosos só para atingir o poder, a importância económica e toda uma consideração e projecção sociais, integrando-se em autênticos “gangues” de acção política, de facções e de cores.

Ainda que não se enunciando ou referindo quaisquer nomes, a grande realidade é que os portugueses já têm plena consciência da degradação a que chegou a política, sempre com a palavra “democracia” na garganta e a defesa do povo na boca mas com a cabeça a desenhar e a pensar em jogos de interesses, truques, malabarismos de palavras e de actos, de promessas e apoios, tendo em vista o poder e suas alternâncias. E daí todo um natural fluir de facções, cores, simpatias e alinhamentos visando “aconchegos” dentro dos próprios partidos, aqui e ali sustentados em amizades ou despeitos .

Mas um facto é que a “mafia” é tão notória que há arrivistas embrulhados em saudosismos de conveniência, em fátuas e vagas fidelidades, em acérrimos defensores de ideias e acções tudo no desdobrar e desenrolar de todo um “jogo” de lugares e cargos.

Natural e consequentemente não são de estranhar as “indirectas”, os “ataques” pessoais, as “intrigas”, as observações críticas e os comentários em sussurro mesmo entre políticos da mesma área e cor, se isso for o melhor meio para atingir os fins: o poder, projecção e consideração social, “penachos” e cargos de que se afirmam desprendidos e mesmo dizem desdenhar. O que é de todo evidente nos momentos actuais, apoiando-se, desafiando-se, comentando-se ou mergulhando-se em silêncios ensurdecedores mas que muito significam.

Não sendo importante sinalizar nomes ou personalidades, o certo é que a realidade portuguesa “explica” e vai ao encontro da preocupação do Boaventura, sendo incontornável que para o descalabro em que caiu a vida portuguesa muito contribuiram a mediocridade, impreparação, estultícia, o pavoneio e o espírito de vingança e despeito de muitos dos arrivistas e “mafiosos” que têm vindo a conduzir o país.

Como muitos dos deputados, acessores, consultores, auditores, observadores, dirigentes, altas autoridades, administradores, presidentes, etc. que enxameiam e vêm ocupando os lugares da administração e governação de um país, alguns deles “ex-alunos” das universidades das jotas onde se “doutoraram” em política, mas com nula experiência de vida e sem reais e sentidas vivências. Visando tão só projecção económica-política-social, segurança de vida e toda uma panóplia de benesses e vénias que se têm vindo a pagar com suor, dores e lágrimas.

Aliás até porque, corrigindo-se António Costa, «a vida política não é (só) um concurso de vaidades»(C.Manhã, 31.1.13) mas algo de muito mais preocupante, como flui dos muitos casos de corrupção, peculato, compadrio, amiguismo e jogos de influência, favor e interesses com toda uma incontornável coloração político-partidária. Só é preciso estar atento aos jornais e TVs.

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