Correio do Minho

Braga, segunda-feira

As Bibliotecas e o seu papel social

O exemplo do “livro de obra” …

Voz às Bibliotecas

2019-04-04 às 06h00

Rui A. Faria Viana

Ao logo dos tempos as bibliotecas públicas têm conhecido alterações no modo como prestam os seus serviços e se relacionam com os seus utilizadores, sofrendo transformações, muito em função das mudanças que ocorrem no contexto global e que influenciam as práticas estabelecidas, expandindo os seus objec- tivos por forma a acompanhar a evolução tecnológica e a responder de forma adequada às necessidades de acordo com o perfil do seu público.
As mudanças sociais verificadas nos últimos anos devido às exigências da sociedade, que se tornou mais individualista e selectiva, obrigam a biblioteca pública, como organização dinâmica que é, a acompanhar as ne cessidades de novos grupos sociais, muitos deles marginais e excluídos da sociedade. Por isso, nunca o conceito de biblioteca inclusiva fez tanto sentido como, também, o que no Manifesto da Unesco sobre Bibliotecas Públicas se proclama quando se refere que “os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social”.
Nos dias de hoje, e cada vez mais, a biblioteca pública é um local onde muitos dos sem abrigo e outras pessoas com problemas psicológicos de vária ordem encontram algum conforto e bem-estar. A afluência destes grupos começa a ser uma realidade cada vez mais evidente por ser um espaço de igualdade que lhes permite usufruir de uma série de serviços e de um ambiente convi- dativo a permanecer e a fruir. A biblioteca pública começa, assim, a assumir um papel social que ultrapassa a questão básica do acesso à leitura.
Muito recentemente (2018) o filme “The Public”, de Emilio Estevez, retrata bem esta realidade numa biblioteca pública de Cincinnati, no estado americano do Ohio, onde muitos dos seus utilizadores são sem abrigo e pessoas com problemas mentais que recorrem à biblioteca quando a severidade do inverno começa a causar mortes na rua. Esta realidade social com que nos começamos a confrontar deve ser encarada pelas bibliotecas públicas com alguma acuidade e numa perspectiva de inclusão social que, obrigatoriamente, vai exigir dos profissionais outras competências e novas interacções com um público até aqui arredado das bibliotecas. Para além da fruição do espaço físico das bibliotecas, e não raro é vê-los a dormir nos sofás da zona dos periódicos ou usufruir das casas de banho para as suas necessidades mais básicas, os utilizadores com este tipo de perfil poderão ser ajudados e naturalmente envolvidos em serviços que lhes permitam aumentar as suas competências em áreas como a alfabetização, a literacia e mesmo a informática, através do apoio que lhes pode ser prestado na utilização do computador e da internet, e até mesmo, no envio de e-mails e no estabelecimento de contactos para conseguirem melhorar a sua condição de vida.
O desenvolvimento de uma estratégia de integração, aqui entendida como um processo de inserção de pessoas excluídas da sociedade, enquadra-se naturalmente na função social da biblioteca. Não é por acaso que este tipo de utilizadores se dirige à biblioteca pública. O facto de ser um espaço aberto e de liberdade, acessível a todos, onde impera a gratuitidade dos serviços, e onde o acesso à informação é também um direito de todos, facilita este contacto e privilegia uma interacção que pode ser aproveitada para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa.
Ao proceder deste modo, a biblioteca pública responde aos problemas presentes na comunidade que serve ajudando os cidadãos com todo o tipo de limitações, respondendo às suas neces- sidades e tratando-os de forma igual independentemente da sua condição social.

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