Correio do Minho

Braga, quarta-feira

As Galinhas dos Ovos de Ouro

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2013-10-20 às 06h00

Carlos Pires

Quem não se lembra do ancestral conto dos Irmãos Grimm? Era uma vez um homem muito velho (e muito pobre) que tinha uma galinha. A galinha começara a pôr ovos de ouro. O velho, entusiasmado, pensou: - dentro da galinha deve haver milhares destes ovos…
Convencido disso, decidiu matá-la, para dela retirar todos os valiosos ovos, de uma vez só. Infelizmente, e para seu arrependimento e desespero, rapidamente constatou que a galinha era inteiramente igual às outras. Ficara sem os ovos e sem a galinha. Perdera tudo.

Vem esta história à colação a propósito do fato político que dominou a semana passada: a apresentação da proposta do orçamento de Estado para o próximo ano (OE2014). Ficamos a saber que o regime de austeridade é para se manter, que continuaremos a empobrecer, que o Estado continua sem se reformar e que a forma substancial de reduzir despesa é cortar nas pensões e nos salários dos funcionários públicos. Já no que se refere, por exemplo, à extinção de fundações e empresas municipais ou públicas, ou a efectivas garantias de que o Estado não irá despender dinheiro com consultores ou juristas privados, uma vez que tem suficientes recursos humanos nessa matéria, nenhuma palavra se ouviu…

Os salários voltam a baixar. E como é que mesmo assim os governantes podem estar tão crentes de que a retoma da economia vai ser uma certeza? Qual é a estratégia? É que do teor do documento orçamental não resulta um país que esteja preocupado com a sua taxa de desemprego, apostado em desenvolver medidas para incentivar a criação de emprego. Nem tão pouco resulta um país focado no desenvolvimento de setores estratégicos, como o turismo ou a agricultura, ou na atração de investimento estrangeiro ou no apoio ao empreendedorismo.
'Não é intenção do Governo torturar os portugueses' - afirmou a ministra das Finanças.
Daria para rir, não fosse a seriedade do assunto em questão. Nos últimos anos subiram (e voltaram a subir) impostos. Cortaram (e voltaram a cortar) reformas e salários. E o resultado nunca foi o melhor, apesar de nos terem sempre asseverado de que essa era a única via para sairmos do poço em que havíamos caído. Depois de tantos e colossais sacrifícios constatamos hoje estar tudo na mesma. Ou mesmo pior. O que - dizem eles - nos obriga a enfrentar mais e mais austeridade.

O OE2014 reflete o propósito de uma sociedade anémica de exaurir de vez os que ainda têm “riqueza”. E, esclareça-se, incluem-se neste grupo de “abastados” quem ganha pelo menos 600 euros (sofrem uma redução de 2,5%) e os pensionistas do Estado (terão de viver com menos 10%). Verão ainda a suspensão do subsídio de férias transitar de 2013.
São estas as “galinhas dos ovos de ouro” que os governantes teimam em ostentar como “as salvadoras da pátria”, às quais retiraram nos últimos anos substanciais doses de “ração”, crédulos de que, não obstante, as mesmas continuariam a produzir em prol dos demais. Agora preparam-se para aquilo que poderá constituir a machadada final, o desventrar das galinhas, na tentativa insana de delas arrancar todos os ovos que as mesmas podem conter.
Ouve-se o aplauso do comando à distância, em Bruxelas, apreciando os executantes lusos. Gritam ”bravo”. Pedem “bis”. Ao som da batuta.

A falta de estratégia, tal como no conto dos irmãos Grimm, leva sempre a soluções tão simples como injustas e desastrosas. E as soluções encontradas para este OE2014 parecem ter um único objetivo: agradar à troika, cingindo os desígnios do país à consolidação orçamental.
Estou certo de que os nossos credores - se lhes fosse devidamente explicado - perceberiam que estão a aniquilar um país, o qual, não obstante, tem revelado uma extraordinária capacidade “para se manter à tona” e que, se o deixarem sobreviver, poderão no futuro embolsar, com os juros acordados, todas as quantias que nos mutuaram.
Os nossos políticos revelam-se infelizmente reféns, verdadeiras marionetas. E não tenho dúvidas que, bem lá no fundo, e ao invés do que afirmam, eles sabem que sim, que de verdadeira tortura se trata aquilo que é imposto aos portugueses. Eles exigem que as pessoas compreendam, mesmo que lhes custe. Mas as pessoas recusam aceitar. Recusam compreender. Porque afinal são elas que eles querem matar.

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