Correio do Minho

Braga, quinta-feira

As mulheres e a sua integração no ensino

Encontrão Ambiental

Ideias

2010-12-06 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

A evolução da sociedade portuguesa verificada nas últimas décadas permitiu uma crescente igualdade entre homens e mulheres. No entanto, na sociedade portuguesa, especialmente na minhota, a subalternização da mulher relativamente ao homem e à própria sociedade foi uma evidência que caracterizou o nosso país durante muito tempo.
Quando, por exemplo, há cerca de 120 anos atrás, se começou a desenvolver na Europa a possibilidade das mulheres frequentarem as instituições de ensino, em Portugal essa situação causou repulsa e violentas críticas.

As instituições de ensino, no nosso país, nem sempre foram vistas com bons olhos pela nossa sociedade. Alguns viam nas escolas, os locais onde os jovens eram, por via do ensino, corrompidos. Numa sociedade marcada pela sua tendência católica e tradicionalista, qualquer alteração nas formas habituais de funcionamento social era vista com algum desdém e até com muita desconfiança. Por isso, quando em 1888 se começou a pensar na possibilidade das mulheres frequentarem as instituições de ensino no nosso país, não faltou quem visse isso como um grande retrocesso na nossa sociedade.
O jornal “Cruz e Espada”, do dia 1 de Setembro de 1888, referia mesmo que o governo português está “sempre disposto a macaquear os estrangeiros em tudo o que é mau”. E má era a forma como pretendia educar as raparigas, colocando-as em liceus. O alarme era de tal ordem, que o jornal referia mesmo que “nem as futuras mães de família, em quem ainda se podia depositar uma ténue esperança de regeneração moral no porvir, nem estas mesmas escapam ao contágio, antes venham a ser um dos mais poderosos meios de desorganisação social, em que se anda cuidando!”.

Baseando-se num artigo publicado numa revista francesa, o jornal “Cruz e Espada” insistia nesta questão do ensino, dizendo que os liceus femininos não têm por finalidade a “formação mais perfeita da mulher; mas sim a deformação da mulher christã…”. O receio de alguns estratos da sociedade era de tal ordem evidente, que não hesitavam em referir que o desejo de todos aqueles que eram contrários à monarquia, era impor os seus ideais através da mulher, uma vez que esta era a base da família. Ora, sendo a mulher a base da família, e estando esta corrompida, logo a sociedade ficava ferida na sua identidade.
Preocupados com o que chegava de França, onde a “lei do divórcio” já existia, estando a ela associadas muitas consequências negativas que se verificavam na sociedade francesa, o jornal acima mencionado afirmava, a propósito do divórcio, que “nós lá iremos também: ninguém duvide d’isso”. Até porque, estando no terreno “deschristianisada a mulher, corrompida a família por meio d’esta, desatar-se-há o seu último laço - o vínculo inquebrantável do matrimónio christão”. De todas estas alterações, resultará o “amor livre”, uma ideia chave dos defensores duma sociedade nova.
A preocupação que existia em Portugal, relativamente à frequência dos liceus pelas mulheres, era de tal ordem, que o alerta era feito aos próprios Bispos portugueses, questionando-os: “Haverá porém harmonia entre estes fins? Poderá a Egreja dar auxílio, ou mesmo tolerar silenciosa, certos meios, que ahi vêmos empregar pelo Estado, para a consecução de fins, que demasiadamente claros se nos estão revelando?”. (Id.).
De facto, a sociedade portuguesa, especialmente a minhota, não recebia bem estas “modernizações” sociais. Basta verificarmos que, em finais do século XIX, as diferenças entre homens e mulheres continuavam a ser bem visíveis: aos homens cabia-lhes “os espaços públicos e as funções produtivas; às mulheres os espaços privados e a reprodução” (1).
Mesmo sendo casadas, as mulheres viam-se privadas de muitos direitos. Segundo o “Código Civil Português”, de 1867, as mulheres não passavam de umas menores: não podiam ser testemunhas, não podiam contrair dívidas, assinar contrato, exercer uma profissão, sem a autorização do marido; se estivessem empregadas, o seu salário era pertença do marido. (1).
A forma como era tratada a mulher, no nosso país, acabaria por se manter durante quase um século. Isto porque a verdadeira liberdade para as mulheres só seria alcançada com o “25 de Abril de 1974”, ou seja, 86 anos após este alerta lançado no jornal “Cruz e Espada”, de 1888.

- “Senhoras e Mulheres na sociedade portuguesa do século XIX” - Irene Vaquinhas, Lisboa, 2000)

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