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Escreve quem sabe

2016-12-20 às 06h00

Analisa Candeias

A emergência e desenvolvimento dos Cuidados Paliativos apresentam-se intimamente ligados às mudanças que ocorreram nas sociedades contemporâneas mais desenvolvidas, nas atitudes perante a morte e o morrer e nos padrões de doença (Barroso, 2010). Com o aumento da prevalência de indivíduos doentes sem terapêuticas curativas disponíveis para as suas patologias, cresce a necessidade da aplicação de serviços de saúde que forneçam suporte e providenciem alívio sintomático e bem-estar até ao fim de vida, tendo sempre por base uma atitude humanística e a perceção do sofrimento. Observa-se, então, uma transformação expressiva relativamente à função dos profissionais de saúde e dos serviços, que além de cuidaram a vida, precisam igualmente de cuidar da morte.

O facto de vivermos mais tempo não fez com que passássemos a morrer de uma forma mais digna. A insistência e veemência na busca do tratamento e da cura de um grande número de doenças, aliadas ao avanço da tecnologia e à cada vez maior sofisticação dos meios tecnológicos usados, originou uma crença na negação da morte, um triunfalismo heróico sobre a mesma e um evidente controlo da doença, fazendo com que as intervenções que tinham como objetivo proporcionar um melhor fim de vida às pessoas, fossem colocadas em segundo plano (Neto, 2006 cit. Ferreira, 2015).

Para uma porção considerável da população portuguesa, incluindo um número elevado de profissionais de saúde, os Cuidados Paliativos mantêm-se insondados, sendo encarados com uma certa dúvida e suspeita, dado os preconceitos e ideias erróneas que lhes estão associados. É comum ouvir-se expressões como “tem de se fazer tudo” por um individuo gravemente doente e que se encontre no término da sua existência, mas será que é mesmo assim?

Será que não existe um momento em que se deve parar de lutar contra o inevitável, para que a pessoa consiga ter um fim de vida com mais qualidade? Afinal, até onde é que os profissionais de saúde, e as próprias famílias, podem ir na luta contra a morte? É claro que se consegue entender a fundamentação razoável e nobre que está na base da anterior afirmação, mas já não se compreende a execução da mesma através do recurso a medidas demasiado agressivas e inúteis, que tem inúmeras vezes como consequência (ainda que a intenção não seja, de todo, essa) agravar ou prolongar o sofrimento e dor da pessoa que, em certos casos, nem sequer foi consultada nestas mesmas decisões. Na verdade, aquilo que se constata é que a morte se transformou num “tabu”, sendo escondida progressivamente pela sociedade, onde toda a gente a mantém oculta do doente que a vive, e, ainda mais grave, toda a gente pensa que sabe melhor do que ele o que se deve fazer.

Deste modo, sentimos que tal acontece em razão da vertente preventiva e curativa se manter enraizada na mentalidade da população em geral e especificamente dos profissionais de saúde, ou seja, 'negligenciam-se as possibilidades de uma morte digna em prol de um modelo biomédico centrado na cura onde a morte é vista como um insucesso' (Barroso, 2010, p.21). Contudo, os profissionais de saúde que se encontram a trabalhar nesta área dos Cuidados Paliativos estão numa posição privilegiada para desenvolver ações que favoreçam não só o ajustamento e o equilíbrio físico da pessoa, mas, principalmente, o seu equilíbrio emocional e espiritual, e igualmente da sua família.

Neste sentido, é fulcral criar uma aliança terapêutica que proporcione uma discussão tranquila e objetiva sobre a realidade, sobre as diferentes opções terapêuticas e sobre as consequências de as realizar ou não. Só assim a pessoa que necessita de cuidados de saúde poderá tomar decisões informadas, tendo inclusivamente o direito de recusar terapêuticas que, no seu entender e depois de devidamente esclarecida, considere como não benéficas para o seu bem-estar.

Conclui-se, desta forma, que o movimento dos Cuidados Paliativos 'foi em grande parte implementado por profissionais com uma paixão por esta área' (Crisp et al, 2014) e surgiu como uma reação à tendência de desumanizar, institucionalizar e medicalizar a morte (Barroso, 2010). No entanto, o forte domínio da medicina hospitalar curativa, a falta de formação específica e as incertezas da prática política quanto aos caminhos a seguir na implementação destes cuidados, têm dificultado o seu progresso (Marques et al., 2009).

Barroso, R. (2010). Condições para o Desenvolvimento de Ações Paliativas em Unidades de Internamento de Agudos. Tese de mestrado em Cuidados Paliativos. Universidade de Lisboa - Faculdade
Texto escrito em colaboração com: 1 - Estudante do Curso de Licenciatura em Enfermagem (4º ano) da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho; 2 - Estudante do Curso de Licenciatura em Enfermagem (4º ano) da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho; 3 - Estudante do Curso de Licenciatura em Enfermagem (4º ano) da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho.

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