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Basquete halal e ping-pong nacional

O valor das pessoas (2.ª parte)

Basquete halal e ping-pong nacional

Ideias

2019-11-15 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Conjugam-se indignações contra árbitros e mesa que apartam a menina Habib de prazenteiro jogo de basquete. De tudo se pode ouvir, da discriminação étnico-religiosa à observação exagerada, escrupulosa, das regras. Diz a menina o que quer, por desforra, o pai idem, e o clube faz coro. Uma manifestação, pensam organizar. Haverá quem marque presença, e da função seremos notificados.
É possível que os interessados saibam que existem aquelas malhas xpto que se moldam integralmente ao corpo, pele segunda que nenhum desportista está impedido de envergar, e até é possível que já tenham cheirado preços, concluindo que estarão para lá da carteira. Pobreza, neste sentido de não dispor de recursos para afrontar uma necessidade justificável, não é pecado nem desonra. É martírio.
Tem, a Fátima, a opção de jogar ou de não jogar. Tem, o clube, a opção de encontrar fundos para garantir a presença da jogadora em campo. O que não têm, é a opção de especular sobre as intenções malévolas de terceiros. A menos que não se importem com os juízos que façamos sobre as suas personalidades.
Em suma, ele há quem não tenha cofre de onde a massa jorre como de inesgotável cornucópia, gentes a quem os recursos não chegam para medicação de combate a doenças crónicas, para decente alimentação, para razoável aquecimento, etc. Junta-te à desgraça, Fátima, e bem-vinda ao paraíso.
A qualidade de vida é um assunto de estado, não porque cada um de nós não esteja obrigado a desenvencilhar-se, antes porque ninguém, tomado na sua singular unidade, consegue derrubar o puxa-para-trás de gerações.
Não diziam, os hoteleiros algarvios, que não conseguiam mão-de-obra, por causa do preço excessivo do alojamento? Não recusam os professores, ao que a imprensa faz eco, colocações no Algarve, ou noutros cantos do país, pela mesma incomportabilidade? De 600 para 750 num quadriénio, decreta o governo. Que não, diz o senhor Saraiva, que os patrões não podem. Não fazermos nós uma quête em favor do patronato!
Em debate de campanha, cuja vitória o acólitos não negaram a António Costa, Rio, a dado passo, disse que de Portugal continuavam a sair os nacionais em catadupa, ás que jogava como sinal de que a situação não tinha melhorado o que um governo proclamava. Respondeu, Costa, que os dados do INE lhe atestavam um saldo migratório positivo, trunfo que atirava como sinal inequívoco de florescimento a olhos vistos.
Não teve artes, Rio, para lhe dizer que o número pintado de Costa se devia ao afluxo de muito reformado de países terceiros, que vêm por causa das vantagens fiscais, a paletes de brasileiros, para quem a terra do samba evangélico perdeu toda a piada, a tranches de asiáticos, que sempre têm mais vida cá, do que de onde partem. O inferno de uns, é o paraíso de outros, sendo que, aparentemente, Costa entende-se melhor com o paraíso dos que vêm, do que com o inferno dos que foram partindo.
Trabalhar, e viver abaixo do limiar da pobreza: a quem pode interessar semelhante estigma?
Seguramente, a quem paga menos, devendo pagar mais. Até receio cair na velha luta de classes, mas parece que ainda não nos apercebemos da legitimidade do direito de contestação. No paraíso das vagas assombrosas, supomos melhor viver sem fazermos ondas, em ascese social, em mortificações de cidadania. Somos uma curiosidade antropológica.
À semelhança do rei que nu desfilava, ainda há de haver criança que se maravilhe com a nossa pelota. Estão nada, atalhará pai ou mãe por emenda: vestidos, e da seda mais pura, do mais diáfano fio. Disto, só em Portugal.

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