Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Big Data: desafios

Trade-offs

Ensino

2018-06-06 às 06h00

Helena Sofia Rodrigues

Proteger os nossos dados? Nestes dias, é a preocupação constante. Eles estão por toda a parte: desde o formulário que preenchemos para garantir descontos na perfumaria até às análises de risco quando solicitamos um crédito pessoal ou um novo seguro de saúde. Por todo o lado se ouvem vozes com grandes reticências sobre a forma como grandes quantidades de dados estão a ser armazenas e tratadas.
Cathy ONeil, matemática com formação em Harvard e MIT, lançou um livro intitulado Armas de Destruição Matemática. A autora começou a percecionar que o nosso mundo digital está rodeado de algoritmos imperfeitos, cheios de enviesamentos culturais e que podem levar ao perpetuamento das desigualdades sociais. Confuso? Cathy ONeil afirma que, mesmo com esta regulamentação forte que se está a implementar, é tarde demais para nos preocuparmos com a disponibilidade dos nossos dados; a questão mais premente prende-se com o que as empresas fazem com os dados. O seu trabalho mostra exemplos recentes como a utilização de algoritmos mal concebidos ou enviesados pode ter consequências significativas nas desigualdades sociais. Por exemplo, condutores que nunca foram multados, mas que tinham restrições ao acesso ao crédito por residirem em zonas menos favorecidas, pagavam mais por um seguro de carro do que um condutor que tivesse uma situação financeira mais sustentada mas que já tivesse um registo de multas por embriaguez.

Outro exemplo apresentado prende-se com a prevenção do crime. A empresa norte-americana PredPol guarda um histórico sobe o registo de ocorrências hora a hora de crimes em algumas cidades desse país. Dessa forma, podia prever com maior rigor onde poderia acontecer um crime e, dessa forma, enviar para essa zonas mais patrulhamento. Por um lado, contribuía para dissuadir algum crime, mas por outro, como havia uma maior intensidade no controlo, o número de registos de ocorrências policiais (nem que fossem pequenos delitos) nessas zonas era maior, tornando-se assim um ciclo vicioso, pois com esses registos levavam a que essas zonas continuassem no topo da criminalidade.
O uso de informação nas redes sociais como Facebook ou Twitter também é uma realidade incontornável. Cruzando a informação que colocamos, partilhamos ou apenas colocamos um gosto, podemos saber com bastante precisão a tendência política, orientação sexual ou hobbies que desenvolvemos. Com isso, as empresas são capazes de direcionar uma campanha publicitária mais apelativa e capaz de chamar a atenção do consumidor com mais eficácia, pois vão selecionar imagens e textos com os quais nós já simpatizamos.

Exemplos como a Google a identificar uma pessoa negra com um gorila ou o Facebook a mostrar anúncios de vendas de casas nos EUA apenas a utilizadores brancos, são apenas alguns exemplos flagrantes que nos põem a refletir que as aplicações que usamos e os algoritmos que estão por detrás das mesmas, não são tão equitativas como julgávamos. Cada vez mais é necessário criar equipas com diversidade cultural para que as pessoas que escrevem os algoritmos possam pensar nas pessoas e se estão a violar os seus direitos humanos. Com bom senso, equipas multidisciplinares e ética, Big Data deve ser usado como uma bússola para os empreendedores, de forma a ter sucesso no mercado.

Mas Big Data não pode ser visto só pela negativa. A perspetiva está a alterar-se: se há uns anos a acumulação de dados era vista como um custo; hoje o grande desafio é reter os dados, extrair informação que possa ser usada na tomada de decisão das empresas. Preparar os dados, selecionar os itens relevantes e encontrar uma tendência, poderá ser a chave do sucesso de um negócio. Com esta estratégia de tratamento de dados a empresa pode ter várias vantagens competitivas: informações precisas sobre os seus clientes, planeamento de vendas mais preciso e desenvolvimento de novos produtos tendo por base os gostos e tendências dos seus clientes.
Esta tarefa é multidisciplinar, complexa e requer experiência, surgindo em muitas organizações uma nova função: o Cientista dos Dados. Com uma formação de base em matemática ou estatística, prevê-se que esta seja uma das profissões do futuro.
No relatório 50 Best Jobs in America da Glassdoor, a profissão de cientista de dados foi classificada como o melhor trabalho em todas as indústrias, com base em apostas de trabalho, salários e classificações globais de satisfação no emprego. Boas notícias para quem procura propostas aliciantes no mundo empresarial.

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