Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

Braga, a cidade das maravilhas?

Costa e os ratos

Braga, a cidade das maravilhas?

Ideias Políticas

2019-11-05 às 06h00

Pedro Sousa Pedro Sousa

No passado dia 18 de Outubro, numa sessão da Assembleia Municipal de Braga, um distinto deputado municipal eleito pelo PSD, ex-Presidente da Concelhia da Juventude Social Democrata e alguém por quem, diga-se, nutro respeito e admiração, fez uma intervenção a fazer lembrar “La Fontaine”, pintando a cor-de-rosa a realidade da nossa cidade e concelho.

Abordou os seis anos da maioria “Juntos por Braga” à frente dos destinos do Município, exaltando, à saciedade, as suas mil e uma virtudes, as suas infindáveis qualidades e a extraordinária e incomparável transformação a que cidade assistiu ao longo desse período, pintando um cenário que fazia de Braga a cidade das maravilhas.

Tal como normalmente acontece, em pouco tempo, menos de vinte e quatro horas depois, o discurso proclamatório e febril da ilusão foi derrotado pela crueza da realidade.

Um dia com chuva mais forte bastou para Braga abrir todos os telejornais do país e não, infelizmente, não foi pela eficiência do sistema municipal de escoamento de águas pluviais, mas, antes, pelas inúmeras cheias, por ruas intransitáveis, por túneis fechados ao trânsito, por carros destruídos por terem ficado quase submersos, por um verdadeiro estado de sítio, causado por um problema que, nos últimos anos, ganhou uma expressão muito mais visível e mais preocupante e para o qual, tal como em relação a tantas outras coisas, a actual maioria não apresenta soluções.

A verdade, a verdade nua e crua, é que a cidade não mudou muito, isto para não dizer que não mudou mesmo nada. A verdade é que a “extraordinária e incomparável” mudança tem um denominador comum: Requalificação - requalificação do Parque de Exposições de Braga, requalificação do Parque da Rodovia e requalificação do Mercado Municipal.

Ora bem, segundo o dicionário Priberam, da Porto Editora, requalificação significa: “acto ou efeito de tornar a qualificar, de qualificar de novo” e, que eu saiba, ainda não é possível requalificar algo que não exista, não é possível requalificar o que ainda não foi feito. E esta é a realidade, a triste realidade da acção política do actual executivo, em termos daquelas que foram as três maiores intervenções que fez na cidade. Está apenas, e porque o natural devir do tempo a isso obriga, a requalificar o que já existia, o que já havia sido feito, nalguns casos bastante à frente do seu tempo, se comparado com a realidade da esmagadora maioria das cidades portugueses.

Isto já para não falar de outras intervenções, danosas para o espaço público e nada transparentes, como são os casos do Continente da Rua 25 de Abril ou a Quinta das Portas, o McDonalds de Maximinos, respectivamente. Isto já para não referir o sempre adiado Parque Eco-Monumental das Sete Fontes e a decisão (quase obstinada) absurda de Ricardo Rio, absolutamente a contraciclo de tudo o que sempre defendeu, de vender o Edifício da Fábrica Confiança.

Mas há mais, muito mais. Podia, se o espaço mo permitisse, desfiar um verdadeiro chorrilho de asneiras, de dislates e de opções erráticas da maioria que governa o Município, mas fico-me por três ou quatro exemplos que, diariamente, massacram os bracarenses.

A Câmara, nos últimos seis anos, viveu permanentemente embriagada da sua própria festa, dos seus muitos eventos, certames, concertos, exposições, rallys e outras coisas mais e, por tudo isso, descurou todos os sinais de crescimento populacional, nomeadamente a chegada de mais de 30 mil brasileiros, que hoje, sem nenhuma intervenção estrutural de vulto, sem nenhuma capacidade de antecipação, sem nenhuma estratégia alternativa em termos de mobilidade, fazem com que o trânsito esteja num estado verdadeiramente lastimável, tornando-o numa das maiores dores de cabeça da cidade actual. Que tal este cenário para Braga, a cidade das maravilhas?

O não cumprimento, o não pagamento de obras já executadas há meses, algumas há anos, tornou-se, com o actual executivo, prática corrente e são já bastantes as empresas que, conhecido que é este procedimento (que sufoca as Juntas de Freguesia e as Empresas), se recusam a realizar obras e a prestar serviços para o município, ao mesmo tempo que este gasta, anualmente, milhões de euros em eventos e aquisições de serviços de qualidade altamente duvidosa. Que tal este cenário para Braga, a cidade das maravilhas?

A gestão dos jardins e espaços verdes é uma gestão para turista ver. Se no centro, no coração da cidade, se vai notando algum cuidado, algum decoro com a manutenção dos jardins e demais espaços verdes, basta sair do centro para se notar uma total falta de esmero, uma ausência total de manutenção e de zelo que, é importante que se diga, é fruto de uma gradual degradação e desvalorização destes serviços municipais que, apesar de muito boa vontade, não têm nem meios, nem recursos humanos para poderem realizar devidamente este trabalho. Que tal este cenário para Braga, a cidade das maravilhas?

Fecho com outro problema grave, muito grave: a falta creches. Há muitos anos, com o PS, a Câmara de Braga quis ter Jardins de Infância para todas as crianças. Entendeu que isso era uma prioridade e, por isso, avançou para a construção, por todo o Concelho, de um conjunto de equipamentos que permitissem termos Jardins de Infância para todos e não apenas para as crianças cujos Pais as poderiam colocar em Jardins de Infância de colégios privados. Hoje são muitas as famílias, demasiadas, assim o dizem as infindáveis listas de espera nas poucas Creches do Concelho, que não conseguem vagas nas Creches para os seus filhos, deixando a nu uma gritante escassez de oferta que o Município, mais uma vez, não foi nem capaz de identificar, nem, como deveria, de antecipar, planeando uma resposta para uma questão que hoje cria muitos e graves problemas a muitas jovens famílias, somando, assim, um conjunto de entraves e de dificuldades ao processo, já em si nada fácil, de emancipação e de início de vida independente destas famílias. Que tal este cenário para Braga, a cidade das maravilhas?

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias Políticas

10 Dezembro 2019

Dar horas ao patrão

10 Dezembro 2019

Viver asfixiados

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.