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Braga e o 1.º de Maio

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Braga e o 1.º de Maio

Ideias

2019-06-06 às 06h00

Carlos Vilas Boas Carlos Vilas Boas

Marcho para Braga, está a fazer-se tarde e faz frio. Gasto a última coroa para a caixinha da rapariguita que me guardou a bagagem. Visto o casaco e vou ao ataque da Pensão Oliveira, onde há que fazer meter na pinha do hospedeiro que sou um velho e fiel cliente da casa. Havia nesta pensão duas velhotas Antigo Regime, uma sala de cortinados com um piano e duas maganas que tinham (uma delas) bigodaça loira. Tá tudo mudado: bar americano, tasco infame, forno de assar frangos. "As velhas morreram, para dar lugar à gente, antão?!" diz-me a filha do dono. Este leva-me ao meu antigo quarto no 2º andar, pergunto pelo piano, ainda lá está porque não há quem o queira. E na antiga cozinha é agora um quarto para noivos ou casais que façam muito uso de água, porque tem chuveiro e bidé sanitas anexo…”,
Assim descrevia a cidade de Braga o escritor Luiz Pacheco, no seu O Libertino Passeia por Braga a Idolátrica o seu Esplendor.

Desde que li esse livro nos tempos de juventude, inserido numa corrente literária que ele próprio chamou de "neo-abjeccionista", escrito em 1961 e que muito escândalo causou na época da sua publicação – 1970, narrando um dia passado numa Braga fantasmagórica, sempre me impressionou a visão de um escritor de vanguarda, mas nascido na capital Lisboa, escrevendo sobre a cidade provinciana de Braga, que enlodaça num frenesim de libertinagem, ainda que mais imaginário do que carnal, num retrato duma cidade moralmente abjeta e duma pobreza estética na qual nunca me revi e que, mais, nunca vi.
E na qual o progresso consistia na importação de modernidades destruidoras do ruralismo autêntico, que certamente muito agradariam a uma certa intelectualidade da capital, que apenas achava aceitável a evolução da qualidade de vida na Lisboa cosmopolita, mas a quem afligia as melhorias nas urbes provincianas, para as quais reservavam o arcaísmo dum modo de vida, que lhes agradava como alternativa em tempo de férias ou em viagens passageiras.

A “Pensão Oliveira” existiu até aos inícios da década de 1980 do século passado, encimando o Campo da Vinha, toponímica e rigorosamente chamado de Praça Conde de Agrolongo, com uma vista (então) privilegiada para essa belíssima fachada da igreja do Pópulo e com uma largueza de vistas ao tempo em que a visibilidade não estava maculada por uma construção em pleno Campo da Vinha erigida na década de 90 do século passado.
A “Pensão Oliveira” leva-me a retroceder a uma cidade dos tempos da pré e pós democracia trazida por abril de 1974, reduzida a três ou quatro avenidas, rasgada pelo eixo avenida da liberdade – avenida imaculada conceição, com um único polo de atração, que hoje se classifica de centro histórico.

Conheci, de resto, muito bem a “Pensão Oliveira”, já em estado de alguma degradação, porque o edifício era até ao início da década de 1980 propriedade de meu avô paterno e em cujo rés-do-chão funciona atualmente o Millennium BCP, sendo os 2º e 3º andares ocupados pelo Tribunal de Família e Menores de Braga, tendo aí chegado a estar instalado o então denominado “Tribunal de Círculo de Braga”.
Revisitando esse livro, seleciono essa passagem como ponto de partida para um exercício necessariamente breve à propalada reabilitação do 1º de Maio, para renascer como Estádio do Sporting Clube de Braga (SCB).
Lembro-me bem quando os jogos de futebol, ao domingo à tarde, se realizavam no estádio, localizado na Ponte, antes 28 de Maio e depois, após o 25 de abril, 1º de maio, praticamente após o final a sul da avenida da liberdade e os cortejos de gentes que a ele rumavam, dando uma vida e um dinamismo enorme ao coração da cidade e ao comércio de Braga.

Recordo com saudade o caminhar em princípios da década de 1970, acompanhado pela mão do meu pai ao longo da avenida, sentido o vibrar dos adeptos, as bandeiras ao longo de todo o percurso, atravessar o parque da ponte e entrar nesse majestoso Monumento de Interesse Público, inaugurado em 28 de maio de 1950.
É, assim, com o maior interesse que tomo conhecimento da vontade que a Direção do SCB manifestou no sentido do 1º de maio passar a ser a nova “casa” do clube, ainda que num horizonte temporal alargado.
Faz, para mim, todo o sentido que a Câmara Municipal de Braga apoie esta pretensão, necessária para a sua concretização porque o Estádio é propriedade do município e que seja possível enquadrar legalmente uma nova construção dentro dos parâmetros que respeitem a existência no local de um Monumento de Interesse Público.

Concordo que o apoio municipal só deverá concretizar-se após a venda do atual Estado Municipal de Braga, aprovada a mesma por Referendo Local, a uma entidade compradora que aceite contratualmente que o mesmo não se destinará a jogos do SCB, sob pena de, em vez de um, o município ficar com dois elefantes brancos.
Esta solução resolveria o problema do elevado encargo para o erário municipal com os custos do Estádio e a questão recorrente da falta de funcionalidade deste, ao mesmo tempo que revitalizava a festa do futebol nas ruas e avenidas da cidade.

Mas deve ponderar-se que o percurso não é fácil, quer pela dificuldade em aprovar a venda através do plebiscitum, esse herdeiro de uma das leges rogatae (leis votadas em assembleias populares), apresentadas pelos tribunos da plebe para deliberação dos concilia plebis, desde logo pela dificuldade em formular a pergunta com objetividade, clareza e precisão, para respostas de sim ou não e por não se vislumbrar como fácil a obtenção de um preço que se aproxime dos 165 milhões de euros ou mais que o município vai suportar com a construção do estádio do arquiteto Eduardo Souto Moura.

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