Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Braga é... um mundo

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Voz aos Escritores

2018-04-13 às 06h00

Fabíola Lopes

Uma casa. Um lar. Um caminho até lá chegar. Um horizonte que faz andar.
Braga é uma cidade acolhedora, com dimensões razoáveis para nos fazer crer que habitamos uma grande aldeia, onde todos nos conhecemos porque há amigos que são amigos de outros amigos comuns e, damos duas voltas, toda a gente se conhece.
Lembro-me de Lamaçães ser uma aldeia nos arredores de Braga, vinha frequentemente à cidade a pé, e encontrava facilmente uma mão cheia de pessoas conhecidas que saudava. Com algumas parava para conversar, perguntar pela família, mandar comprimentos aos de casa. Agora faz parte da cidade e o seu vale, outrora campos verdejantes, é hoje um enorme parque de legos de cimento.

Hoje ando por cá, em Lamaçães ou nas ruas do centro, e feliz é o dia em que reconheço duas pessoas. Ouço línguas diferentes, o que a faz parecer crescida, cosmopolita. Encontro uma panóplia de atividades, desde o jantar com fado ao curso de cinema com o Mário Augusto. A cidade cresce e tudo cresce com ela. O hipermercado Continente na Rua 25 de Abril prova que não gostamos muito de aprender com os erros. A anulação de parcómetros em algumas ruas dá-nos esperança em relação às boas notícias. Ficámos felizes e esperamos por mais.
Entretanto o preço do arrendamento das casas disparou. Há mais procura do que oferta e a lei do mercado é antiga. Mas o salário médio do português não se coaduna com este custo de vida. Talvez as coisas não sejam caras, se olharmos à carga de impostos que cai sobre tudo. Ganhamos é francamente mal. Um amigo diz-me que estamos a cometer os mesmos erros do passado, que mais um ano ou dois e o mercado rebenta outra vez. Por muito que, por um lado, e é um lado muito pequeno, gostasse de concordar com ele, a informação que me entra pelos olhos faz-me discordar. Há pouquíssima construção nova e muita restauração. Aprendemos qualquer coisa: revitalizar, melhorar, preservar. Ainda assim, não chega.

Há ainda um movimento de entrada de cidadãos de diferentes países. Portugal está na moda e não é só turismo. Temos universidades de renome que atraem tanto alunos como professores, clima temperado, segurança, boas gentes, melhor gastronomia. E também já não é só Lisboa. Há mais Portugal além Tejo. Estes movimentos são cíclicos e a história repete-se, apenas com roupagem diferente. Haverá país com mais emigração na história do que o nosso, desde o tempo dos Descobrimentos? Quem chega foge, muitas vezes, da insegurança, de um futuro instável e triste, da fome ou de uma guerra urbana declarada embora ninguém lhe chame isso. Procuram tudo o que se opõe a estes atributos. E Braga tem. Não assentam em Lisboa ou no Porto, não lhes reconhecem a pequenez encantadora, o atravessar a cidade em dez minutos ou ainda outras qualidades que, aos meus olhos de residente desde o parto, me escapam. Às vezes gostava de conseguir despir-me destes olhos carregados de identificação e memória e conseguir ser turista em Braga, desvendar-lhe os segredos com olhares de estrangeira. Estranhar o que trago entranhado. Afinal, as fronteiras são todas irreais. Só as que carregamos nos bloqueiam.

Mas há fronteiras que se dissipam, quando há vontade. No microcosmo que é uma sala de aula, uma turma é composta por alunos vindos da Finlândia, do Brasil, da Ucrânia e do Luxemburgo. É minha, mas podia ser em qualquer escola, onde o espaço é transformado numa arena de contrastes, de partilhas e de engrandecimento com frequência. Torna-se um mundo plural, onde todos saímos enriquecidos, onde construímos uma manta de retalhos, feita de tecidos distintos, que nos aquece nas horas dúbias. Há dificuldades? Claro que sim. Mas trabalhamos juntos para as ultrapassar: eu, eles e quem nos rodeia e abraça.
Vejo Braga assim, um mundo de possibilidades, de crescimento, de aprendizagem, onde só com respeito pela diferença se podem vencer os desafios. E crescer com todas as singularidades até nos tornarmos gigantes, com uma manta suficientemente grande para que ninguém passe frio.

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